terça-feira, 30 de junho de 2009

Sobre o dia em que olhares deram de chover

tinha uma chuva olhada escorrendo lá fora,
foi a chuva menos molhada que já se viu

olhe!

não é que não pudesse me encharcar
ou que não caíssem gotas suficientes
eu vi que tinham
e eram de água corrente

mas é que caíam olhos ao invés de pingos

toda a água na qual ia se esvaindo
era de lágrimas que tropeçaram
e que como os rios
foram para o mar

fui tomar aquela chuva pela primeira vez
e não pude mais vê-la,
pois era a chuva que tinha olhos
pra me m'olhar

se vinham do céu,
eram anjos então
tinham asas olhos
ou eram dos anjos elas?

sei só que choveram olhares
milhares de m'olhares
e um molho deles se formou no chão

de quem era aquele choro
que chovia?
feito num coro de vozes pingadas
ou de piscadas
dos anjos

que me olham
quem se molham

depois da chuva
evaporaram todos das poças de olhares,
ou usaram umas asas
para vestir as suas vestes
e tornar pra d'onde vieram
... as órbitas

se eram anjos
choravam à revelia
ficou escuro pra que pudessem chover em paz
não os vi,
mas chorei também

e quando a noite caiu,
ainda era dia.

domingo, 28 de junho de 2009

Café árabe.

... e um outro dia numa xícara de café
ficou um resto de borra
formando um borrão

disseram-me que ali se lia o destino
coisa na qual não pude
e não consegui acreditar
a despeito das tentativas

era um dia cabalístico
de pessoas sensitivas,
o que não se pode mudar
não se deve saber
de um jeito ou de outro
elas vão dar no lugar de acontecer

coisas que um amigo torto que apontou
enquanto eram um comercial na televisão
das plantações de abóbora em Goiás
e sobre borboletas que batem asas na Bahia de todos os santos

das palavras que não me saem da cabeça
dos seus rostos rotos, que vejo em todos os lugares
e a estranha coincidência de conhecê-lo sempre
sob a mesma alcunha,
aparentemente a mais comum das que deram de existir
aqueles goles eram de um líquido elixir
e enquanto ele falava, me lia
eu,
na minha pequeneza o ouvia,
sabendo estar ele em envólucros sutis

de todas elas,
as coincidências que se transubstanciam em borras de café
no fundo de uma xícara vazia
a não ser por ela mesma
inventando pra si um conteúdo

a não ser por nada
que vá na vida fazer algum sentido
o absurdo pálido do vazio
ou som determinista que a sensitiva leu
na borra nebulosa que é o destino meu.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

aerômetros

Havia uma menina bêbada cujos olhos
catavam-vento,
suas íris giravam como frevos em guarda-chuvas
rodavam, feito seu mundo
êta-óleos!
êta-nolhos
ê-ólicos
eu olho!

Ela tinha medo
que as fotografias lhe roubassem
a alma quando fitassem o olhar,
aerômetros
por onde ela escapava,
numa ventania cambaleante
que balançava
todas as massas dançantes,
de ar.

domingo, 21 de junho de 2009

sexta-feira, 19 de junho de 2009

tempero

A luz de um dia frio
foi tudo o que sobrou do vento
quando mandou sua mensageira
anunciar o dia daquela chegada

O vento fez do tempo sua morada,
e a pobre mensageira
solidão

A luz da lamparina
brisa apagou primeiro
o que dela sobrou
foi um cinzeiro
e um prelúdio da escuridão

Como enganam seus olhos
quando se tem fome!
um furacão passou
confundindo nossas identidades
e a menina de recados
roubou meu nome,
ruborizei-me,
pelo nú

Fico esperando ele passar
seguido de uma ausência,
que sei,
vai se apossar de mim

Roendo o último fio
das coisas nas quais acredito
o mal dito
pra quem eu quis tudo

... tudo há de ruir
depois dessa tempestade
quando até o brilho do último tanto
de luz vai se mandar

Quando o vento sopra
leva tudo que resta,
e não há luz que ilumine
quando não se tem mais nada,
pra acreditar.

Carpas.

O tempo escapa ...
ao tempo

O tempo escarpa
o tempo ex-carpa,
o que é ele
quando não era um peixe?

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Crendices de Goiás II

Pobre o dono dessa alcunha.
Em Goiás tem um bolo com nome de gente
que tem terra debaixo da unha,
é de mandioca e se começa a comer pelo pé,
apesar de ser feito de sujeito muito homem,
é um bolo de Mané
se toma com café e não se come gelado
esse é um bolo sem rôpa,
o tal do "mané-pelado".

Crendices de Goiás I


Amanheci com a garganta doendo
perguntaram o que tinha acontecido,
respondi:
"Tomei sereno".

quarta-feira, 17 de junho de 2009

má, drugada

e essa musica agora
me fez lembrar de mim mesma
a essa hora

de quando eu era outra
com saudade de coisa desconhecida
não era pouca
e era doída
chorava à hora de dormir

... a música me fez sorrir
embora depois tenha embalado meu peito
em meio ao silêncio de um sujeito,
e de todos, que agora dormem
enquanto meu pranto,
o que tenho em mim?

um rubor,
que não divido ou comento
uma febre
uma coisa de momento
um contentamento
e uma ânsia de paixão

o que é a vida
e o que sou eu
meu coração?
que torno à mim mesma
ouvindo uma música que desconheço
onde reconheço pedaços de memórias passadas
guardadas, grudadas
por vezes lacradas

tornar a senti-las
ouvi-las
e chorá-las ruidosamente
pra que não se possa escutar
nada além dela,

a música bela
daquela janela,
da lua,
da qual não me esqueço
volto à lembrança
... e ao começo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

sobre a velhice

as rugas, as pulgas, e os mosquitos
vem todos do mesmo lugar

as rugas são berrugas,
que os mosquitos vão sugar

eles cavam leitos macios
para as pulgas
que vem depois neles pular.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Pára-Rosa

tinha orvalho
no assoalho,
e eu, assoava o nariz.
Eu na madeira,
o assoalho feliz!

uma rosa tirada do jardim
que foi do chão ao chão,
eu, rosa carmin
rosa sem pão.

plantaram-me lá
onde fiquei
molhada
a chuva na cerejeira
daquelas táboas assoadas.

fazia o assoalho sorrir
e quanto a mim,
enrubecia
eu era a rosa e ele assoalho
meu choro ressoava,
enquanto ele dormia.

trova língua

do trovador
só se ouvia a trovoada
e da nuvem,
o trovão
o céu dispersa
mas que trovação transversa

a história de uma fruta - sob a perspectiva da árvore

acredite no que eu falo
ainda agora tinha uma fruta
sob os meus braços
estarrecendo

ela, pobre coitada, julgou estar amadurecendo
quanto à mim
tudo que vi
foi que apodrecia

mas a fruta frustrada
dos meus braços não caía
tinha medo do mundo
debaixo

julgava que naquele momento ela era eu
e que eu era tão somente o mundo seu,
aquela maçã gripada!

mas eu sou a árvore
a raiz é minha
aquela fruta abusada
queria tudo que eu tinha

a história de uma fruta - sob a perspectiva dela

acredite no que eu falo
porque ainda agora
estava embaixo de uma árvore
amadurecendo

não que eu seja uma fruta
dessas que tem pernas
e saem por aí correndo

nem dessas que estão maduras demais
e caídas
ainda me aproveito da seiva dela
pra curar minhas feridas

embaixo daquela árvore
eu era caule, tronco e raiz
numa sombra memorável
daquela tarde agradável
eu fui uma fruta feliz

tromba língua

o elefante trombou
na pŕopria tromba,
daí as trombetas
trombetearam,
quanta tromba tem ação
mas que trombe teação!

Pára-taço

pára-taço
apara os raios que caem na cabeça
não te esqueça
das descargas que trazem azar
tanto que clamas pelo excesso dele

pára taço!
de passar mantega nas costas do gato
pra testar a própria sorte
não tem outro jeito
as coisas sempre caem de cabeça pra baixo
e grudam no chão

tantos anos tenta a sorte
captá-la para taço nos raios da televisão
com antenas das pequenas
as baratas que as tem
pensa quieto
segue calado
se as traço as absorvo eu também?

para taço
em papel carta e traços rotos que rabiscou
com nankin
pára de traçar o azar,
diz parate pra mim.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Para Ícaro

por mais incrível que possa parecer
sei do que estou falando dessa vez
ícaro é meu primo
e já deixou o labirinto
enganando seu pai
como ele sempre quis

pobre ícaro
meu parente infeliz
quem tem um sonho como esse afinal?
voar em direção ao Sol
tornaria à terra que nem sal,
feito em pó

ícaro, ícaro
chego a sentir dó

não que não fosse inconstante
o outro grego
seu semelhante,
a proximidade com aquela estrela
os uniu no desejo

sei que Ícaro sofreu
mas era esse seu ensejo,
embora macabro e mortal

ele tinha então asas pra voar
imagino que fosse impossível não fazê-lo,
sentir a brisa do mar fora do labirinto
não me venham dizer que nessa história minto
quando na verdade foi meu primo quem enganou seu pai

e como fosse avesso
à tropeços
ao prazer das asas se rendeu,
umas que o vi coser

não tenho negado nosso parentesco
desde então
à despeito do que possa parecer
deixou seu calabouço
mas para junto do pai sempre voltava,
ele havia dito ao menino
a verdade nua e crua

encontrei outro dia o Minotauro na rua
e ele me disse: "ícaro morreu",
não acreditei ...

... vieram me entregar os restos mortais de icaro essa manhã
quando finalmente chorei,
não balbuciei palavra
não se ouviu ruído
"melhor viver e voar uma vez do que não voar e ter morrido"

ih... pô!

hipogrifo
cavalo mítico
que sublinha rústico

ipogrifo
alado místico
kung fústico

ippongrifos...
apocalípticos
confúcicos

hipopótamos
hipocondríacos
estapafúrdicos

hipotálamos
palavreávamos
sem ter um dom

ippogrifos
travaram guerras
alando homens
gravando ippons

mentiras contadas a pouca luz

eu escrevo no escuro
não dá pra enxergar as letras assim
não sei que sentimentos me permeiam
tampouco os que passam por mim.

não sei mas sinto
não sei se minto
porque não sei.