segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ansiedade de viagem

Conversando com meu amigo, que está prestes a embarcar pra longe, perguntei se ele estava ansioso.
Ele disse que sim, e eu disse a ele que sinto que a ansiedade, nesse caso, funciona mais ou menos como uma esperança de ser feliz. 

Meu amigo me perguntou se eu não fico ansiosa antes de uma viagem. Ansiosa daquele outro jeito, com aquela outra ansiedade, o medo de perder os mapas, de não encontrar os endereços, de não ter reservas em hostels. Essa ansiedade eu realmente estou perdendo com o tempo e hoje eu viajo sem reservas. Sei pra onde eu vou mesmo sem saber dos endereços. Acho absolutamente maravilhosa a sensação de chegar em uma cidade estranha, sem a menor noção de como é o mapa daquele lugar, ou de onde estou, e de tempos depois, guiada pela bondade das pessoas, ou por minhas próprias pernas e pela intuição, chegar a algo como uma casa. Hoje eu sinto o mundo mais como uma casa e as pessoas como pessoas que eu conheço. Aliás, ainda não é totalmente assim, nem todo dia é assim, mas vai se tornando mais e mais natural a cada dia. A minha ansiedade de viagem se parece mais como a ansiedade de um filho que retorna pra casa dos pais depois de muitos anos, ou meses, mas, no caso, sem nunca ter estado naquela casa. É uma ansiedade do encontro. O encontro com um lugar que conheço apesar de nunca ter estado nele antes, o encontro com pessoas que conheço, mas que ainda não sei quem são. E quando reconheço a casa nos lugares e nas pessoas, se ilumina meu coração. 

O amigo me disse que a parte mais aterrorizante é a do aeroporto, dos mapas, mas eu digo a ele : você não tem que fazer nada disso. Se você se escutar, aos poucos vai sentir o que quer fazer e vai ver que não precisa de mapas para encontrar os lugares, nem de celulares para encontrar as pessoas. Isso não deveria soar como uma receita, mas acredito que nosso coração vai sempre encontrar o coração dos lugares e reconhecer o coração nas pessoas. 




Sentimentos sobre a escola.

Considerando que a nossa vida escolar vá dos 4 aos 22 anos, que o ano letivo tenha a duração de 200 dias, cada um com 5 horas de aula, passamos na escola, ao todo, 18 anos, ou 3600 dias, o equivalente a 18 mil horas. (em um universo de 6480 dias e 102 mil horas de vida desperta - considerando 8 horas de sono por noite).


18 mil horas ! Salvo engano são quase 20% do nosso tempo. Tudo isso passamos dentro de uma escola. Considerar a manipulação estatística já parece indicativo suficiente de que investir nesse tempo é uma coisa seriamente importante. Estar presente, desfrutar 20% dos momentos de nossas vidas é importante. Eu me pergunto se estamos presentes na escola; se as crianças estão presentes ali; se nos encaixamos com a proposta que a escola tem para nós. Eu me pergunto se existe uma justificativa que valida o abismo entre o que as crianças querem da escola e o que queremos que a escola seja para elas. Por que a gente acha que pode enfiar um monte de baboseira na cabeça das crianças mesmo que quase toda criança do planeta nos dê sinais bem claros de que ela acha a escola, no mínimo, chata ? Por que a escola regular parte do pressuposto de que os adultos são os únicos que tem alguma coisa para ensinar e|ou compartilhar ?


Entre os 4 e os 22 anos. Todo o tempo dentro da escola se passa justamente na fase de nossas vidas em que estamos conhecendo o mundo; conhecendo as pessoas; aprendendo a nos relacionar com o mundo e com as pessoas. "Depois dessa idade já passou da hora de aprender", nos dizem. Não é pouca coisa o que se tem que absorver entre os 4 e os 22 anos. Especialmente porque a gente não constrói aquelas relações naturalmente, como seria de se esperar. Alguém vem e diz pra gente : "essas relações SÃO assim !" , "Você precisa fazer ASSIM ! " , "É assim ! " Ou então nem te falam sobre certas coisas, como, por exemplo, sobre sexo. Quando falam, é ou de um jeito pudico ou de um jeito excessivamente mecânico. Quase nunca é natural e despretensioso. Depois esperam que a gente encare tudo de uma maneira saudável e natural. Te respondem perguntas que nunca passaram pela sua cabeça. Você nem entende por que te dizem aquilo. No começo a gente até se empolga pra ir na escola. É um lugar cheio de amiguinhos, com parquinho. Mas aos poucos a gente vai vendo que a escola não é sobre os amiguinhos, é sobre aquele monte de coisas que não significam nada nas nossas pequenas vidas. Mas você tem que receber tudo com disposição, se possível decorar e, ao mesmo tempo, não se empolgar demais, não sair correndo, não demonstrar suas emoções porque não é legal parecer maluco e é muito mal educado conversar durante a aula. Cobram você sobre o que você decorou, e começam a dar sorrisos pra quem decorou melhor e fazer caretas pra você se os números mostrarem que você não sabe decorar muito bem as coisas.

Esse planeta é tão bonito. As pessoas, quando você olha dentro dos olhos delas são todas lindas ! A escola vem e ensina pra gente que tudo é separado em um monte de grupos de coisas e pessoas, e a partir de então vai começando a nossa obsessão por racionalizar e separar as coisas do mundo. "Dividir para conquistar!" E especialmente a separar aquilo que se pensa daquilo que se sente. E pior, a negligenciar o que se sente. A gente se perde do que sente. Depois dá um baita trabalho recuperar isso. A gente fica confuso sobre o que é mesmo o mundo, a gente se frustra, o mundo fica confuso e a gente continua reproduzindo essa confusão toda por aí. A gente deposita muita expectativas no fato de que ir em um consultório falar sobre a nossa infância com uma outra pessoa com quem a gente não pode ter nenhuma relação afetiva vai resolver essa confusão toda. A gente espera que as crianças engulam uma grande confusão e bem quietas. Sem fazer muito barulho.

Eu sinceramente não sei responder se a escola deve realmente ensinar o que é tudo isso aí que já está no mundo quando a gente chega. Eu não sei responder a nenhuma pergunta. O que a escola deve fazer ? Ás vezes eu penso que deveria ser muito mais simples, mas claro que essas imagens estão sempre associadas a comunidades pacíficas vivendo na mata, sem tecnologia, ou guerras, sem grupos de pessoas, que brigam por direitos, porque as pessoas simplesmente respeitam o fato de que existe vida no outro ser e que é isso que merece atenção, amor e respeito. Parece justo que muitos esforços sejam concentrados para dar uma boa ideia do mundo que criamos, das perguntas que fazemos, da maneira como respondemos a essas perguntas para as crianças. Mas eu realmente não sei se a gente deve impor tudo isso para elas. Sinto que a escola deveria ser destruída. Parede por parede. Não adianta reformá-la e a meu ver não adianta reformar ideias que não deram certo. A gente tem tanto ímpeto, tanta potência pra ter novas ideias por que não usar isso? 

Oscilo bastante entre o radicalismo e posturas mais amenas. Muitas pessoas muito legais e amáveis e lindas fazem muito esforço pra reformar esse sistema, pra reformar a escola, pra fazer a diferença no mundo, pra propagar o amor. E elas estão ajudando a formar seres humanos lindos. Isso acontece dentro das escolas. Os professores, em geral, são seres que tem muito amor dentro de si, muita paciência e muita compaixão. Um problema é que, para cumprir um programa de ensino, eles acabam tendo que falar só sobre como bloquinhos deslizam por rampas e não sobra tempo pra falar sobre amor, alegria, a paciência e a compaixão - apesar que muitos professores deixam isso transparecer de várias formas. Mas, infelizmente, isso atinge muito poucas pessoas e, de certa forma, continua a propagar os valores de que o ensino serve para formar trabalhadores para a sociedade e não seres humanos que estão vivendo uma vida. Sei lá o que é isso. Viver. Eu fico em dúvida. E quando eu fico em dúvida e quando a dúvida gera medo acabo por adotar uma postura mais amena. A dúvida é boa e as certezas são perigosas.

O que eu sinto que é mais dramático na escola é que toda essa imposição destrói a criatividade, oprime, ameaça e que, geralmente, mantemos os comportamentos que herdamos na escola durante a vida adulta. A gente passa a acreditar que pra resolver os problemas tem que adotar uma postura impessoal, sem ligações afetivas, sem amor. Porque a gente aprendeu a reprimir os sentimentos pra manter relações profissionais. Torno a pensar que destruir a criatividade das crianças é uma maneira de torná-las reprodutoras do sistema que apresentamos a elas. Um sistema do qual muita gente não gosta, que nos faz pensar que o nosso melhor papel social é comprar uma calça da Calvin Klein pra salvar o as crianças do "Ziribati" da fome. Eu comecei a entender que na relação contemporânea da escola com as crianças, queremos fazer exatamente isso : torná-las reprodutoras do nosso sistema. 

Esse reproducionismo, essa educação em série de seres humanos pode ter seus lados bons. Deve ter. Imagino e compreendo. Mas nesse processo todo perdemos a oportunidade de compartilhar das ideias das crianças, de usá-las para mudar o mundo, oprimimos a expressão livre de ideias, sentimentos e pensamentos. Perder o contato com as ideias das crianças é o mesmo que perder a oportunidade de sonhar, de inventar e de nos deliciar com isso. O mundo não dá muito espaço para sonhadores bobos e sem noção. Esse "mundo" que está aí precisa de pessoas que tenham os dois pés cravados no chão. (No fundo a gente sabe que a gente inventa o mundo, que ele pode ser tudo o que a gente quiser. Mas a gente está confuso. E toda essa confusão e opressão fazem a gente ter muito medo de girar a roda pro outro lado ou de, pelo menos, entender que existem dois sentidos pra roda rodar.)

Não precisamos de diagnósticos sobre como o ensino vai mal. Sobre como os livros são ruins. Eu nem acho que precisamos olhar para os livros, ou ir até a escola para constatar isso. Está refletido nas ruas. A gente aprende a não olhar pra outros seres humanos jogados nas calçadas. A gente joga lixo no chão. A gente aprende a dar mais valor a uma peça ornamental feita com marfim do que a vida de um elefante. A gente não sabe fazer o imposto de renda. A gente não lembra da história do nosso país. A gente abre vírus no email. A gente acha que saber se comunicar é colocar todas as crases corretamente. A gente não sabe de onde vem a comida que come. A gente faz piada e ri do sofrimento alheio. Certamente há algo que cheira mal no modo como contamos às pessoas sobre o mundo. Ou estaria muito certo ? Afinal de contas, a escola contemporânea está aí pra ditar às pessoas como o mundo está e o que você deve fazer para que ele continue assim no futuro. Nessa perspectiva sou forçada a admitir que a escola é uma instituição de grande sucesso e não como eu tinha pensado no começo uma instituição com problemas incuráveis.


Sinto que temos que prestar mais atenção ao que as crianças que decidiram não frequentar a escola tem a dizer. E se alguém pode apontar o caminho sobre como deveríamos compartilhar coisas sobre o mundo com as crianças, são elas próprias. Afinal, são elas que estão gastando as 18 mil horas da vida delas com isso. A gente já passou dessa fase e provavelmente esqueceu.


* E eu me sinto meio mal de ficar o tempo todo falando o que eu acho o que eu não acho, eu mudo de opinião o tempo todo, eu me sensibilizo com o que as pessoas opinam, como elas defendem as ideias delas, e eu também acho que sempre existem dois lados para as coisas. Eu não acredito muito em certo e errado. Nem essa última frase deve ser totalmente certa ou totalmente errada. Eu não gosto de defender uma única postura ideológica, quero dizer, eu acho que não faço parte de nenhum grupo ou ideologia. Eu fujo de grupos. Eu não acredito em teorias malévolas da conspiração. E eu não sei como resolver essas dúvidas mesmo dentro de mim. Mas tudo bem. Eu estou aprendendo, estou errando. Estamos sempre no processo. Mas, mesmo assim, mesmo com medo, decidi compartilhar esse meu estado mental temporário com as pessoas porque elas sempre me dão ideias legais.

domingo, 30 de agosto de 2015

see

Sometimes I wish I could see you
I can almost touch you in my dreams
but I am always with my eyes wide shut.

Guerra dos Mundos

Uma das coisas que mais me interessa é a relação entre a imaginação e a realidade. Traduzindo em miúdos da vida em sociedade, a relação entre a imaginação e a ciência; imaginação e literatura e imaginação e experiência. A contramão dessas relações, quer dizer, a influência da ciência sobre a imaginação, e assim por diante, também faz parte desse bolo interessantíssimo de interesses. 

Algo especialmente intrigante para mim são os relatos de pessoas que foram abduzidas por alienígenas. Nunca passei por uma experiência desse tipo, de abdução, mas encontrei-me com pessoas, que marcam muito minha vida, inclusive, que se diziam alienígenas e contavam histórias sobre o fim do mundo. Pois bem, esses relatos são altamente interessantes por ocuparem uma delicada fronteira entre o que é real e o que é imaginado, especialmente considerando que a realidade pode ser imaginada e que nosso imaginário cultural constitui uma fonte de informação importante nesse processo. As experiências imaginadas podem ser tão fortes que se constituem como experiências reais, ou, melhor dizendo, que se parecem com o resto das nossas experiências "reais", enquanto estamos despertos. Interessantemente, muitas dessas experiências são relatadas como uma mistura entre sonho e realidade. O que, inclusive, é uma fonte de grande confusão e insegurança para aqueles que as relatam, conduzindo as pessoas a questionar a própria saúde mental. 

Mas desde que lidamos com algo proveniente do nosso imaginário, estamos lidando com a história de nossa cultura. e, aqui, particularmente neste momento e para este assunto, a relação entre imaginação-realidade-história me interessa bastante. Ao que me parece, a maior fonte de informação sobre contato entre humanos e extraterrestres está nos Estados Unidos, e assim essa história permanece no nosso imaginário - nós que absorvemos e somos influenciados pela cultura norte-americana. O maior número de casos registrados, que vieram a público, estejam eles entre os casos duvidosos e os que mereçam estudo sério de estudiosos da mente, por exemplo, estão nos EUA. De forma que essa cultura sobre contatos com extraterrestres é bastante forte no mundo dos anglo falantes. Claro que estudiosos norte-americanos buscaram outros relatos pelo mundo, mas os casos mais conhecidos, quando aconteceram na África, o caso do Zimbábwe (Escola Ariel), por exemplo, as crianças que relataram o encontro eram crianças alfabetizadas em inglês. Por limitações óbvias não consigo encontrar muita coisa sobre esse tipo de encontro na cultura oriental, especialmente, antes de sua imersão no ocidente e no imaginário cinematográfico norte-americano. 

Em um documentário sobre o que aconteceu na Escola Ariel, Zimbábwe, um especialista menciona que esses relatos teriam começado na década de 20, quando pessoas começaram a desenhar a imagem hoje tão conhecida dos alienígenas (olhos negros, grandes e puxados). Naquela época, nos EUA, dois conhecidos astrônomos norte-americanos, trabalhando em observatórios sediados na Califórnia, rediscutiram a possibilidade de existência de outras galáxias, trazendo à tona no século 20 uma questão que atravessou séculos. A implicação direta da existência de outras galáxias é que o Universo seria muito maior do que o que imaginávamos, abrindo possibilidades para um novo tempo de insegurança cósmica. Além disso, na mesma época e dentro dessa mesma discussão dos astrônomos, outro tema dividia opiniões e dados científicos : nossa posição dentro do sistema solar. 

De alguma maneira, eu sinto e acredito em uma correlação entre esses eventos. A discussão sobre a existência de outras galáxias foi razoavelmente divulgada naquela época, pelo menos o suficiente para compor algo significativo no imaginário coletivo. Claro que aqui estou me dando liberdade para usar  termos como inconsciente coletivo ou imaginário coletivo sem muita preocupação com o rigor. Eu não quero colocar em questão, ou não está em questão para mim, a veracidade dos relatos. Quero dizer, eu acredito que as pessoas que relatam esses acontecimentos, claro, não todas, realmente acreditam ter vivido um contato com alienígenas e tem as impressões registradas em suas memórias. O que é mais interessante para mim é como essas memórias foram parar ali e como a imaginação atua nesse processo. Ou seja, como a  imaginação produz a "realidade", e é, ao mesmo tempo, produzida por ela, entendendo como realidade aqui na segunda sentença nosso contexto cultural.

Sobre o relato das crianças, de que a mensagem que os alienígenas transmitiram era sobre o fim do mundo, catástrofes, de que não estamos cuidando bem do nosso planeta, etc. Lembro-me que nas proximidades de 1994, houve uma grande comoção no Brasil pelo acontecimento da Eco 92. Pelo menos no início dos 90, essa discussão era bem conhecida, e como eu devia ter uns 10 anos naquela ocasião, eu posso dizer que houve uma grande comoção entre as crianças. Quero dizer, a gente pintava na escola sobre a Eco 92, a gente falava sobre a necessidade de cuidar da natureza,  e do planeta e um símbolo que a gente reconhecia bem era o do planeta Terra e vários humanos de mãos dadas em torno dele. Minha intenção não é nem de longe sugerir que essa história toda é um golpe, ou de que ela foi produzida pela mídia, e muito menos que seja um delírio infantil. Quero dizer, psiquiatras reconhecidos estudam esse assunto com rigor e seriedade



Ver em : https://www.youtube.com/watch?v=TeXq-ifs5JY





futuros

O mundo no futuro será tudo aquilo que imaginarmos para ele. Eu acredito fortemente no poder da imaginação humana como criadora da realidade e que tudo aquilo que imaginamos cria ou molda a "realidade". (e realmente passa a existir, desde que seja compartilhado por um número grande de pessoas  - ou como uma realidade local para pequenos grupos)

Fico repassando as formas como o sistema capitalista, por exemplo, mexe com nosso imaginário e como, talvez, muito de seu sucesso e sua propagação ao longo dos séculos se devem à relação que mantemos com a nossa imaginação. O mesmo com as religiões, com a ciência e obviamente com todas as coisas que estão por aí moldando a maneira como enxergamos o mundo e como imaginamos o mundo no futuro. Talvez por isso, exista tanta semelhança entre os futuros imaginados por escritores de ficção-científica e o presente hoje compartilhado por nós.

Talvez tudo isso resida na condição humana : nós queremos dar vida àquilo que imaginamos. Ao que chamamos de paixão, impulso, vontade. Por exemplo, queremos que a mitologia religiosa seja realidade e a isso chamamos de fé (claro que o sentimento de fé aqui não se resume e é provavelmente composto por milhares de outras coisas. Mas há algo nele de muito forte que é essa vontade de criar, de dar existência ao que foi imaginado). Tentamos materializar a teoria religiosa de alguma forma e procuramos por sinais das entidades fantasmagóricas pelo mundo pra dar mais sossego pra nossa alma. 

Queremos tornar aquilo que imaginamos parte da vida porque talvez a gente sinta que nesse processo a presença se materializa. A imaginação é real, quero dizer, eu consigo realmente ter sensações muito intensas, ou presentes, nos mundos que imagino, com as pessoas que imagino. Mas falta algo nesse mundo imaginado e sinto que esse algo é a presença em sua plenitude. Não é da presença de um outro que estou falando. Falo da nossa própria presença. Inteira, completa. Presença é estar no momento. Presença é se dar conta de que o fluido da vida e você são a mesma coisa. 

Quando criança sempre acreditei no meu poder de transformar a realidade, de adaptar a realidade, de fazer dela o que eu quisesse. E graças aos meus vários estratagemas e esquemas mentais pra tornar essa crença real, materializá-la, eu nunca me decepcionei com isso. Era algo certo pra mim. É claro que eu imaginava coisas que não se concretizavam. Mas eu sempre dei um jeito de entender - dentro da minha teoria - porque essas coisas não se concretizavam. Por que é que eu não podia voltar ao passado ? Por que é que eu nunca acordava uma garota bonita ?

Há alguns anos, acho que perdi a capacidade genuína de acreditar que posso manipular a realidade. Recuperar essa crença é hoje uma das coisas mais importantes pra mim. Eu sinto que imaginar é tudo e a vida depende da maneira como nos adaptamos ao fluido no qual estamos imersos, ou do qual fazemos parte*. O pensamento, a mente, podem se levar por esse fluido, e podem também manipulá-lo. Estranhamente manipulamos esse fluido quando nos damos conta de que nós somos o fluido (*eu não queria dizer parte dele, porque dá a ideia de separação e não existe separação entre nós, mente, e esse tal fluido, a vida quando a iluminação parece ser um momento, um átimo em que nos damos conta de que somos tudo a mesma coisa. Seja lá essa coisa o que for, ela é tudo.)

E se tudo que existe é esse fluido, que vaga e corre no sentido do que imaginamos, pensamos, construímos, como pode o futuro correr no sentido diferente do que aquilo que prevemos para ele ? Se o futuro está acontecendo agora, pode ser. Tudo pode estar acontecendo agora e a imaginação pode ser uma leitura dos vários tempos que se tocam. Uma leitura do correr desse tal fluido. Não existe quando.

E múltiplos futuros ? Existem ? É como eu disse : existe tudo aquilo que imaginarmos. Mas, na minha "sentiência", não dá pra saber quem veio antes: a imaginação ou a presença. A presença pode ser imaginação ? Tudo pode. Não precisa fazer sentido, e não tem a menor importância.






quarta-feira, 26 de agosto de 2015

infinitos

existem infinitos destinos de viagem no mundo
porque a cada lugar que se vai pode-se retornar infinitas vezes como outra pessoa.


sábado, 22 de agosto de 2015

Feijão

Se tem uma coisa que é certa na gastronomia - seja ela nano, molecular, gourmet, etc. - é que os sentimentos do cozinheiro-a-x são absorvidos pela comida. Ninguém entende muito bem esse esse processo - sejam físicos, químicos ou a Bela Gil - mas sabe que ele existe. Assim, quando alguém cozinha com amor e carinho a comida sai muito mais gostosa. Nesse sentido, uma pergunta que reina no misterioso império culinário brasileiro é porque o "feijão da mãe" é o alimento com o maior potencial de absorção de amor. 8 em cada 10 brasileiros relatam que o "feijão da mãe" é o alimento que mais gostam ou de que mais sentem falta na vida. Daí eu penso que o feijão tem um grande potencial para agir em problemas de humor e sentimentais, especialmente na depressão. 
Mas eu queria entender o que tem no feijão que faz ele ser assim. Perguntei pra minha irmã, que é agrônoma e mãe, mas a gente não chega a um consenso. Será que em outros países existem alimentos tão capazes quanto o feijão ? Será que é porque o feijão é uma leguminosa ? Teria a lentilha o mesmo poder ? 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Outras pessoas

Eu já quis ser outras pessoas
Marina Abramovic encontrando Ulay
Van Gogh pintando "A noite estrelada"
Renoir estudando luzes e sombras
Beethoven compondo "Clair de Lune"
Sigur Rós compondo "Svo Hljótt"
Xavier Dolan filmando "Lawrence Anyways"
quis ser o próprio Lawrence
Avicii e  Alesso discotecando
Lykke Li cantando "I know places"
Michael Ende escrevendo a "História sem fim"
um amigo malabarista
"Lucas e Orelha", que ganharam um programa de televisão





Alesso

quando eu era criança, bem pequena, ficava muito de castigo
alguma bobeira que fazia
e não podia dançar quadrilha; não podia ir passar o fim de semana no lago.
não sei pra que tanto castigo.
a gente não entende. quando a gente é criança tudo é na hora.
aliás, quanto mais novo a gente é mais a gente está presente nos momentos de uma maneira absurdamente intensa. parece que não vai existir depois. a gente não tem paciência.
isso me fazia usar de todas as forças pra sair do castigo e ir "viver a vida" loucamente. 

quando eu entrava de castigo eu ficava desesperada. em algum momento saía pra um canto,
sentava e apertava meu cérebro o mais forte que eu podia.
a cabeça ficava vermelha e não era de raiva (ás vezes era, mas isso é outra história).
eu pensava que se eu pensasse bem forte, o tempo retrocederia até o momento em que eu não estava de castigo, e eu poderia evitá-lo. 
então eu pensava bem forte.

eu via que o tempo não voltava atrás porque continuava de castigo.
eu esperava que minha mãe surgisse perguntando coisas do vestido de quadrilha; esperava que tudo fosse se alterar à minha volta e ficar "feliz". mas, a princípio, eu não pensava que eu mesma fosse mudar porque eu não queria mudar, só queria não estar de castigo. pra isso quem tinha que mudar, na minha cabeça, eram as outras pessoas. 
eu achava meio impossível que o tempo não tivesse voltado, já que eu tinha pensado tão forte, tinha feito tanto esforço. mas nada mudava. minha mãe continuava brava comigo e minhas esperanças de fazer as coisas funcionarem assim iam se frustrando a cada momento.

então eu entrava  em um terrível dilema : e se o tempo tivesse voltado e eu tivesse feito tudo da mesma maneira e tivesse ido parar no castigo de novo?
mas eu como eu podia ter feito tudo igual se eu sabia que aquilo ia me render um castigo?
mas não tinha outra explicação. 
devia ter acontecido isso, ou mais ou menos isso. o fato é que eu tinha voltado no tempo e feito algo pra merecer castigo pra sempre. e pra sempre eu ia permanecer naquele castigo. voltando no tempo e fazendo tudo igual. não importava voltar no tempo, eu continuaria presa no castigo. a certo ponto o castigo se tornara voltar no tempo. não me lembro muito bem como resolvi esse "contratempo" conforme fui crescendo. só sei que nunca mais tentei voltar no tempo com a força do meu pensamento e com o passar dos anos acho que fui trocando essa obsessão  por uma outra : tentar não me arrepender de nada que eu faço, ou que deixo de fazer.   

hoje eu estive pensando nisso, porque acordei com uma grande vontade de ser o Alesso. às vezes eu acordo querendo ser outras pessoas, na verdade, eu acho que a gente é as outras pessoas, mas isso fica pra uma outra conversa. 
o fato é que não adianta pensar forte; explodir a cabeça de tanta força do pensamento porque parece que não tem como eu me tornar o Alesso. o problema desses dilemas, tanto do meu dilema infantil, quanto desse meu dilema pseudo-adulto é que eu espero continuar sendo eu depois de me tornar o Alesso. mas depois de me tornar o Alesso eu sou o Alesso. eu não sou mais eu. na verdade, nós estamos infinitamente nos tornando Alessos por aí, a cada instante. é assim que somos todas as pessoas ao mesmo tempo. porque quando nos tornamos o outro, deixamos de ser nós mesmos.

eu sempre tive muita fé (vou chamar assim) de que tudo o que eu penso e acredito se torna real. a realidade é fluida. então tem que existir uma explicação pra tudo isso :
se eu tivesse me tornando o Alesso, eu não seria mais eu. eu, que queria ser o Alesso, seria uma outra pessoa, um Alesso-x. acho que por conservação de pessoas-que-querem-ser-outras-pessoas ainda existe uma Victória-x-+oo, que continua querendo ser o Alesso-x-+oo e se tornando o Alesso-x-+oo. essa daí é a que vos fala. 










segunda-feira, 17 de agosto de 2015

As alegrias de um coração partido

a gente que tem o coração partido
deve se alegrar
o coração partido vem em vários pedacinhos
pra deixar de lembrança a quem se ama e com quem não se pode ficar

e quanto mais quebrado ele for
maior a generosidade
você pode amar Machu Picchu e o Piauí
e deixar seu coração em todo canto de qualquer cidade

um coração partido nunca está só
feliz eu sou porque um dia descobri isso
e não entrego mais meu coração por inteiro
a um único compromisso.