terça-feira, 12 de outubro de 2010

Dor de fofoca

Como é que pode
tanta gente
pensando tanto ar
respirando tanta coisa
comendo fuligem
sentindo tudo ao mesmo tempo
e tendo pouco tempo pra tudo.

Como é que pode ser
tanto automóvel
e tanto avião
em São Paulo.

Gente que sorri,
que torce o nariz
que empurra
que cospe...

e eu que não tenho o amor das minhas irmãs...
como dói a distância
todas elas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Problema Jurídico

Pareciam ter um buraco no meio do peito
o que falavam e quando emitiam algum som
não era permanente
lhes escapava através de um furo,
que tinham no peito

As pessoas daquela sala
separadas por 32 divisórias
conversavam muito sobre os negócios dos outros

Estava lá e tive medo de ser notada
mirava aquele buraco
e me parecia ser ele mesmo a razão de tanta falta
que havia nelas

Era triste o uníssono do silêncio
pior que ele
as almas que se esquivavam das janelas ausentes
perenes naquelas divisões angustiantes

Parecia ser uma fumaça
que envolvia seus rostos em sorrisos
e disfarçava as vontades que de fato
fugiam delas mesmas

Eram enfadonhamente monótonas
as suas disputas por 32 dinheiros
ridículas se tomadas num cenário cósmico

Lá fora ardia o dia
como sempre
ou teria o Sol se apagado
pra chover torrencialmente no fim?
ele mesmo se desprendia de minhas mãos
através de buracos,
feito areia encharcada
que me interrompia o fluxo da respiração

Sufocava,
sequer notaram...
preocupavam-se em suas baias
com cotações.