segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O colchão selvagem de Fabrício.

Antes que eu me esqueça, escrevo para contar de um sonho.
Ele passou por mim essa noite, ou fui eu quem passou por ele.
O que me importa, pelo menos agora, é que estavas lá.
Talvez ele estivesse em você.  Não sei.
E não sabendo ao certo,  digo que não me importam, ou não deveriam me importar, tais diferença de significado.
E significados.

Éramos três ou quatro. Você, eu e Bruno.
Tínhamos um destino comum. O que o nomeou, portanto, como o quarto entre nós.
Deveríamos ter partido em viajem já há algum tempo. Enquanto isso os sons.

Finalmente o momento da partida chegara.
Parecia já ter feito aquela viagem e do mesmo modo que agora a faria.
Íamos todos para Santa Branca. Uma cidade pequena no interior de São Paulo.
O caminho era entrecortado por várias outras dessas cidadezinhas e, disso eu já sabia.
Como o sabia que viajaríamos em um colchão.

Não era nem um pouco incomum usar o colchão como meio de transporte naqueles tempos.
Mas eu não tinha percebido o quão incomum era para as outras pessoas, caladas ali na margem.
Colocamos o colchão no leito do rio e ele boiava. Não se molhou. Não havia nele nenhuma cobertura de plástico.

Entramos todos dentro do colchão, se é que se pode assim dizer, e começamos a descer o leito do rio.
Não me lembro do nome do rio. Não sei se isso é importante. Eu tive a impressão de que fazíamos a viagem daquele modo para economizar com a passagem de ônibus. Você sabe, viagens de colchão são de graça

Percebi que o colchão ia sozinho. Tomava as rédeas do caminho por si próprio, como se fosse autônomo. Não portávamos remos. Não era necessário esforço de nossa parte, o que fazia daquele, um dos melhores modos de viajar.

Alguns trechos eram bem acidentados e eu tive medo que algum de nós despencasse do colchão. Ele não oferecia nenhuma proteção contra quedas em cachoeiras ou trechos como aqueles. Tampouco usávamos coletes salva-vidas. Não era preciso já que sonhávamos. Sonhávamos todos?

Chegamos a uma cidade muito engraçadinha. As casas e demais construções arquitetônicas eram muito pequenas. Toda a cidade fora cuidadosamente construída nas mais delicadas minúcias. Enxergávamos-na completamente mesmo estando há 300 metros de distância. Havia uma ponte perto do rio onde desembarcamos. Ficamos por lá certo tempo apreciando a vista de enormes árvores. Essas sim, magnânimas e soberbas. Soberanas. Lembro-me do cheiro como se fosse açúcar.

Voltamos à bordo. O rio se transformara numa coleção de cachoeiras de três metros de altura.
Deveríamos subir aquele trecho, mas ele era realmente muito inclinado. Temi por nossa segurança. Parecia também que eu já havia enfrentado aquela parte da viagem. Com a mesma sensação de angústia. As mesmas dúvidas. Acho bem possível, já que o sonho era meu. Tive medo que o colchão não conseguisse. Ele levava quatro de nós e o Bruno estava rechonchudo. Ainda assim, conseguimos subir os mais de três metros de cascata tripulando o colchão. Ele era extremamente resistente, como então percebi.

Eu ouvira uma notícia no rádio, de que muita chuva era prevista. O volume das águas era incalculável.  Pedi que a viagem fosse cancelada. Instantaneamente todos aceitaram minha súplica e fomos até uma estranha rodoviária comprar passagens. Sem mais na metade do caminho. Não me lembro mais da presença do colchão e de seu destino desde aquele momento.

As passagens eram para Santa Branca. Isso a sorte não teve a oportunidade de mudar. Nem o número de passageiros. Continuávamos nós quatro. Os mesmos. Quem sabe. Durante aquela outra viagem perderam-se as malas. A unica coisa que sobrava insistentemente sobre o colchão éramos nós.  Todo o resto se foi e eu nem sabia que tínhamos coisas. Restaram-me apenas os tênis que calçava. No fim eu nada perdera. Não me lembro dos seus pertences, tampouco dos pertences de Bruno.

De volta aos tênis - pois isso me pareceu importante - estavam absolutamente encharcados.   Fiquei um pouco atordoada, pois todos naquela cidade saberiam antes do amanhecer, que além de ter um único par de tênis eu tinha um terrível xulé. Um xulé molhado.

Desde que saí de lá, de toda aquela situação, estive aqui. Escrevendo.
Estou relatando o sonho pra você, caso não se lembre dele ao acordar.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

bambuzal na bienal


Eu em um outro dia desses: "Não. Espera aí! Que que é isso? Eu venho pra uma vernissage chiquérrima  e encontro uma indecência dessas? Um cara barbudo e de madeira... sem roupa? Não. Não. Vai colocar pelo menos uma samba canção senão vão acabar te demitindo dessa mostra de arte... vai por mim que você vai estar no design."


Eu em um outro minuto de um outro dia desses: "Ei, também não é pra tanto... não precisa se jogar do seu palquinho de madeirinha por causa disso. A vida vale a pena... é. É. Não. A sua barba não é feia. Orelhudo?  É claro. Sua barriga é estilo pin-up girl. Não. Não. Não foi bem isso que eu quis dizer..."


Eu em um outro minuto depois de uns outros dez minutos de um outro dia desses: "Isso, isso... sai daí da berada vai. Isso não adianta pra esconder os documentos. Você tem que cair na real e colocar uma roupa mesmo.  Pára com essa cara! Pelo menos uma cueca vai... "

Eu em um outro minuto depois de um outro minuto de uma outra hora de um outro dia desses: "Levanta a cabeça meu. Desdobra os joelhos também. Isso.  Encara os problemas de frente! Isso, isso. Agora eu quero que você entre lá dentro e procure pelo menos um tapa sexo pra se cobrir. Engole esse choro! Pxsiii! Se você fizer o que? Vai pegar fogo?"

Em homenagem a Janeiro

Esse é meu primeiro post do ano...
quero pra mim um aposto
aposto que farei um post doc
e desse um post feminino
uma posta, portanto
uma posta de peixe,
e postergar o primeiro post sério do calendário.