sexta-feira, 30 de outubro de 2015

memento mori

algum dos meus colegas do primeiro ano da faculdade, não sei quem, mas desconfio, pegou o meu caderno e escreveu em uma página distante do resto das anotações

memento mori

não me esqueço. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

presença

A gente tem um incrível poder :  dividir a nossa alma em várias partes.
Sábios estamos quando percebemos que a alegria, enquanto um apreciar os momentos da vida, é uma questão de presença. Só se pode estar presente no presente.
Consigo enviar partes de mim para o futuro (expectativas)
Consigo enviar partes de mim para o passado (memória)
Consigo enviar partes de mim, ou o meu eu inteiro, para o sonho (tudo é incógnita)
Mesmo no agora, consigo enviar partes de mim para viver momentos que eu gostaria de ter (imaginação) 

Mas há algo no presente, no agora, que consegue captar todos os pedaços nos quais podemos nos dividir.
O presente é quem pega os pedaços e os une. 
Talvez o presente também seja capaz de juntar todos os pedaços que somos nós :  todas as coisas. 
Quando conseguimos sentir a presença de todos os seres no momento presente, tudo aquilo que é inexplicável, místico, mas que ao mesmo tempo se revela. Aí é o que acredito que seja o momento mais iluminado de nossas existências.  

* existe alguma coisa que não seja o presente ? nas minhas alucinações, induzidas ou não, eu sempre tenho a revelação de que o presente é o único momento que existe. não sei muito bem o que isso significa. não acho que faça sentido. mas não tô nem aí. 



domingo, 25 de outubro de 2015

caolhos

não existe um eu que tenha dois olhos
o olho que falta são aqueles que estão em todo o resto
a completude das coisas reside na necessidade de completar o nosso olhar com o olhar do outro.


é o olho dos outros o que nos falta.


* não vejo problemas nas ambiguidades
não vejo problemas nos dualismos
nem mesmo na separação
se há algum problema está na aparente oposição que criamos entre duas coisas
existe uma enorme beleza em perceber a junção entre as coisas, o ponto de convergência
onde tudo se torna um.

nossa mente é condicionada a enxergar a separação entre as coisas ?
talvez sim. talvez aqui.
acho que nos cabe aprender com isso, que onde existe separação existe união
e deixar o foco na separação pra nos focar no seu abraço.



terça-feira, 20 de outubro de 2015

Dualidades

Tive alguns sonhos essa noite. Não me lembro muito bem deles. Sei que me fizeram acordar pensando sobre como a sociedade "evolui". Ou, melhor dizendo, como as nossas sociedades tem "evoluído" historicamente. O que me surgiu na cabeça de maneira bem instintiva foi a ideia de guerra. Todas as ideias relacionadas a guerra estão fortemente associadas a nossa ideia de evolução, de um mal necessário como um meio para um bem maior.

Fico pensando como essas ideias bélicas, sobre a guerra e sobre os homens na guerra invadem a nossa vida cotidiana nos mais variados campos. A própria ideia de campo do conhecimento. Isso parece estar ligado a ideia de que existem vários campos de batalha, e uma guerra sendo travada ali. Um determinado modo de pensar suplanta seu adversário depois de uma batalha. Nosso vocabulário - considerando a língua portuguesa -, está todo repleto de termos relacionados à guerra, à batalha, à luta. Você ganha, você perde, você vence. Existe a luta das minorias. Tudo é uma luta. "A guerra contra o câncer". "A guerra contra o analfabetismo". "A defesa da tese". O novo supera o velho. Há sempre a ideia de um vencedor. Alguma coisa fica derrotada depois do embate. Mesmo dentro de nós mesmos, travamos batalhas. Batalhas para nos superarmos, para vencer a dor, o ódio, o egoísmo.

A gente não procurar enxergar os sentimentos de maneira integrada. Por exemplo, a tristeza é oposta a alegria e não é vista como o seu complementar. A tristeza é necessariamente separada da alegria. A gente quer excluir, destruir, esquecer de tudo aquilo que considera ruim, mal, triste. A gente não tem paciência pra procurar enxergar o papel desses sentimentos, forças, energias, no mundo e dentro de nós mesmos. Mas esses sentimentos todos fazem parte do mundo. São importantes. Eles constituem o quadro geral da nossa visão de mundo, ou sentimentos de mundo, digamos assim. Por que a gente quer excluí-los ao invés de entendê-los, compreendê-los? Por que os separamos e só conseguimos identificar que estamos alegres quando não estamos tristes? Como se um pouquinho de tristeza não pudesse fazer parte do nosso estado de alegria. 

um ponto delicado sobre a maneira como enxergamos o mundo, sobre como enxergamos o progresso, ou como construímos a ideia de progresso : a forma beligerante. As coisas não confluem, elas não se encontram. Por mais que "exista" um dualismo, ou que enxerguemos o mundo através dos dualismos, o problema não é o dualismo em si, mas o fato de que as duas forças estão sempre em guerra. Elas movimentam o mundo porque se chocam. Será que é assim mesmo ?

* Enxergamos o movimento no mundo a partir da luta entre forças opostas. Nós não vemos o movimento do mundo na sua confluência. Particularmente falando, sinto que a outra perspectiva em que as forças se encontram é o amor. O amor é oposto da guerra. No amor todas as coisas que parecem opostas e separadas são vistas como uma face da mesma coisa.  Hoje acordei pensando nisso : por que a gente não consegue enxergar o movimento, a mudança do mundo, ou produzir o movimento e  mudança dentro do amor ? Talvez uma resposta para isso seja  a nossa tendência em separar as coisas, levados pela racionalidade, pela mania estruturalista do pensamento racional : dividir para conquistar. Consigo enxergar que isso nos leva a enxergar o movimento do mundo a partir da fluência das forças em choque e não em sintonia. 











domingo, 18 de outubro de 2015

papo com Pedras

Outro dia quando passei por uma cachoeira de água cristalina e azul, fiquei observando longamente uma pedra. Pode-se dizer que trocamos um momento de observação recíproca, eu acho, ou em linguagem mais apropriada, que eu bati um papo com uma pedra. Aprendi da pedra. E parece que quanto mais eu observava, mais aprendia.
Ela é uma pedra que fica bem no caminho por onde a água cai. Uma dessas que ajuda a formar a queda da cachoeira. Bem grande, talvez não tão grande quanto uma montanha. Mas ainda assim, imponente. Essa pedra me ensinou algo que nunca vou esquecer sobre a sabedoria milenar : paciência.

Fiquei observando ela ali, paciente, esperando a água passar sempre com pressa. de chegar ao chão. Você está meio acostumado a ver a pedras imponentes mais ou menos do mesmo jeito de sempre. Elas parecem nunca mudar. Parecem ser duras. Resistentes. Mas se você observar bem dentro do coração das pedras vai ver que elas são seres bem suscetíveis a mudança, e que, ao contrário do que se pensa, não são inertes. As pedras são pacientes. E elas tem uma sabedoria muito grande sobre o amor.

Elas pacientemente vão levando suas existências interagindo com os elementos capazes de promover mudança em seu estado físico. A água é um desses elementos. Ela passa impaciente pela pedra. Fazendo estardalhaço quando cai no chão, quando bate na pedra. A Pedra nunca reclama do barulho que a água faz quando bate nela. Ela nunca reclama. Só deixa a água passar. E enquanto a água passa, ela se transforma. Sua transformação muda também o modo como a água passa por ela. E assim, a pedra vai se transformando, compreendendo a natureza dos outros elementos, e compreendendo a si mesma em todo esse processo de transformação que é a vida.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

suicídio

o suicídio é o ato último e, talvez, o último ato de rebeldia.
covarde, espero que a morte me chegue por outras mãos
e por que não ?
não há em mim infelicidade
há uma mistura de curiosidade quanto ao imaginário e tédio quanto ao imaginado.
suicídio. por que não ?
por que tentam a tanto custo evitar, mascarar, esconder essa possibilidade ?
faz parte da vida o fato de que a vida está para a morte.

existe um prêmio por bom comportamento no final ?
por que temos que viver essa vida ? a gente pode escolher quando dormir, mas não pode escolher quando morrer ?
quem é que disse que a morte é o fim ?
por que temos que esperar por ela ?



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Formação dos risos

Rio do tombo
quando trombo no rio
como uma tromba d'água.

O rio do tropeço é um rio raso.
E o riso do tropeço é raso também ?
O rio é mágico, o riso é lindo !

O rio se faz no tropeço,
Ele vai indo, descendo, xuando.
Quando o rio se ria, me rio eu.
E vai tudo rolando por água abaixo feito um tombo.
Riando !


*Para aqueles que dizem : "caiu, tem que levantar"
Eu digo "caiu, tem que rir". Sou dessas pessoas que caem, tropeçam, se estatelam no chão e ficam lá jogadas rindo da própria sorte. Alguns diriam má-sorte, mas eu digo "tem sorte melhor que terminar tudo no riso ?"

terça-feira, 6 de outubro de 2015

palavras

palavras. gosto, acho interessante, mas não confio muito.
palavras são uma redução.
é mais ou menos como se a gente pegasse um pacote de coisas, sentimentos, impressões, e dividisse em pequenas partes no intuito de estabelecer comunicação.
processo deveras complicado : primeiro a pessoa que fala separa o que ela quer dizer em partes. a pessoa que ouve interpreta parte por parte e tenta unir tudo depois.
quanto ruído existe !
poderia ser mais simples : levar o seu coração junto a outro coração e deixar os corações fluírem por aí. talvez o que flua sejam os fluxos dos corações e não propriamente corações. mas qual a diferença entre essas coisas?

tenho acompanhado discussões de grupos por aí. é triste. há grupos que pregam o amor, o respeito enquanto que suas discussões....  vejo que as discussões dentro desses grupos não caminham bem nessa direção. quando alguém aparece com uma ideia diferente, que soa preconceituosa para aqueles que consolidaram uma determinada maneira de pensar, eles são atacados. não existe compaixão, paciência. as pessoas deixam o ódio fluir.


disse ao meu amigo que "as coisas vão fluir quando a gente deixar de se focar nas caixinhas de conceitos, na separação entre as coisas, nas palavras". ele me diz que "não se pode chegar pra um grupo e dizer : gente vamos agora nos comunicar com nossos corações". é. talvez não. mesmo pra mim, que persigo isso, não é simples. a gente se comunica com o coração, mas duvida das respostas que recebe. ás vezes, se deixa dominar pelo medo, e volta pro modo normal de operar. porque a comunicação com o coração pede que você saiba se comunicar com o seu próprio coração. e isso é coisa rara. como a gente pode dizer que discussões em grupo levam a transformações pessoais, quando as pessoas não aprendem nem mesmo a se se ouvir ?

não vejo como ensinar as pessoas a realmente se escutarem dentro de um modelo que foca na discussão de assuntos que elas aprenderam a enxergar como sendo algo externo a elas, e muito menos usando palavras como veículo pra isso. as palavras põe o foco de qualquer discussão nas caixinhas de conceito, na separação. estou me repetindo.

acho que como somos o todo, quando a gente muda a si próprio, o nosso íntimo, a gente muda o todo também. por isso, não entendo muito bem esse foco das pessoas em mudar o resto que não elas próprias. é que a gente consolidou a nossa visão de mundo desse jeito, com a separação, a outrificação. e acredito até que seja um aprendizado muito grande pra gente se enxergar como partes do todo. acho que temos que experimentar e aprender nesse mundo, desempenhando os papéis de maneiras que façam o todo "progredir", digamos assim. mas essa palavra progredir é ruim. então, dentro disso, mudar a si próprio é um esforço e um exercício de mudança para o coletivo.

mas se a gente pode aprender com a separação, então também deveria existir aprendizado significativo dentro desse modelo das palavras.  não faz sentido viver uma vida tentando se esquivar dela ou não dando presença aos momentos. esse modelo das discussões. faz sentido localmente, para nossas existências particulares. mas, para mim, o que faz sentido no sentido holístico, e digamos na essência de uma "realidade" é esse modelo de comunicação do coração. você veja que por dois motivos nem eu consigo explicar muito bem o que quero dizer com tudo isso : minha falta de habilidade para explicar o que estou sentindo; e a falta de palavras para traduzir isso de maneira precisa. mas, ainda assim, sei que o que estou dizendo é compreensível para aqueles que vão além das palavras.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Olimpiadas Científicas


No sistema de olimpíadas científicas, em sua espinha dorsal, permanece e prevalece a questão da competição. As crianças são muito legais e lindas, etc. Elas talvez tentem burlar esse esquema porque colaboram muito entre si. Mas cada uma delas quer ganhar, superar o outro, superar a si próprio.
Enfim, as crianças fazem o máximo q podem. Eu sempre desconfiei de alguns aspectos da olimpíada, mas durante muito tempo tentei encarar como uma forma mais democrática, saudável e participativa de aprendizado. Especialmente se comparada ao modelo tradicional da escola. As crianças aprendiam a desenvolver a autonomia sobre si mesmas, sobre o que queriam estudar e como queriam estudar. Além de ter a oportunidade de conhecer pessoas de outros lugares do país com os mesmos interesses, vindas de contextos culturais distintos.

Podem participar da olimpíada crianças do país todo. De qualquer escola. Assim a gente tem a impressão de que o negócio é muito justo, porque qualquer um pode. Assim, crianças pobres,  que frequentam escolas públicas ou particulares teriam as mesmas chances. O que acaba acontecendo é que a gente tem a impressão de que a olimpíada é um treco legal porque algumas crianças pobres tem a chance de ingressar em boas escolas, e boas universidades, caso demonstrem um desempenho excepcional na olimpíada.

Aí o que acontece é que essas poucas crianças são incorporadas ao universo de uma elite. No fim, a olimpíada continua sendo uma competição que solidifica o poder das elites na sociedade porque ela não promove igualdade. Ela promove o acesso de alguns poucos a uma elite, mas não dissolve a elite. Apenas há algum tempo percebi que não concordo com instituições que promovam pessoas pobres ou sem escola, com menos oportunidades, digamos assim, à uma elite. Pra haver igualdade e justiça no mundo as elites tem que ser dissolvidas. Não existe elite quando existe igualdade. Não são todos que fazem parte da elite quando existe igualdade, porque a ideia de elite só faz sentido quando existem diferenças (nesse sentido social, econômico e político, etc).

A olimpíada consolida e justifica a elite. E ainda por cima o ingresso de alguns poucos estudantes com menos oportunidade se faz como justificativa social de sua existência. Mas peraí. A olimpíada se tornou uma fábrica de currículos para alunos do ensino médio no Brasil. Currículos que mandam os alunos de escolas extremamente caras para universidades como Harvard, etc. Essas grandes escolas, grandes empresas, muitas vezes oferecem bolsas a alunos pobres que se destacam nas olimpíadas. Oferecem bolsas porque podem usá-los como propaganda. É claro que tudo isso promove um grande diferencial na vida desses estudantes, mas ainda assim, tenho muitas ressalvas quanto a olimpíada como um processo. 

A gente usa uma exceção, um caso heróico, pra endossar todo um sistema. Se devemos lutar por algo é pra que não existam elites. Por que as elites querem se preservar, e deixar com que 1% dos pobres ingressem em seu mundo parece ser uma justificativa suficiente para que os outros 99% de pobres não se insurjam contra ela. Essa é a lógica do sistema de premiação. 


(Na Alemanha, por exemplo, os estudantes nem se interessam muito por olimpíadas cientificas, em geral. Tenho dois amigos que são professores de física lá. Estive conversando com eles a respeito e a minha suspeita é de que como a educação é muito mais igualitária ou que a sociedade é mais igualitária, e muito mais aberta em vários sentidos, as crianças não se interessam por esse lado da premiação, de integrar a elite, porque não existe uma separação tao grande entre a elite e o resto. Não existe uma elite tão bem delineada. Aqui, no Brasil, uma grande motivação para os alunos é essa de integrar uma elite, de receber esse prêmio. Ganhar uma bolsa. Ser considerado um herói por um pequeno grupo e ingressar o time de alunos que vão pra Harvard, etc. )

sábado, 3 de outubro de 2015

Guerra santa contra a astrologia

Não se pode tirar a legitimidade de um campo pela existência dos charlatões. E aí uma coisa bem curiosa porque o nosso comportamento com relação a isso é contraditório. A gente aceita de acordo coma conveniência. Por exemplo, sabe-se que existem pastores evangélicos charlatões. Promove-se uma cruzada contra ELES, indivíduos, porque se entende que não é legal tirar dinheiro das pessoas MANIPULANDO suas crenças. E isso nunca é legal. Mas a gente não tira a legitimidade da visão de mundo dos evangélicos só porque existem alguns pastores charlatões. Ninguém chega e diz pros evangélicos que o fato do pastor da igreja deles ser mentiroso é uma prova de que a Bíblia ou seu conteúdo são falsos. Nem é minimamente razoável admitir que todos os pastores são charlatões, ou que a visão de mundo dos evangélicos é inválida por causa das práticas desses alguns pastores. Da mesma forma, eu não acho que seja razoável admitir que todos os astrólogos são charlatães ou que a visão de mundo deles é inválida pq existem alguns astrólogos charlatães. (Fazendo uma digressão e extrapolando um pouco, mas o fato de que alguns astrólogos cobram por seus serviços, e note-se que não são todos, é perfeitamente compreensível, visto que os padres pedem dinheiro aos fiéis, a medicina lança medicamentos no mercado e cobra muito caro por eles, os budhistas cobram para que as pessoas façam cursos nos templos, etc. Isso é só resultado de que a maioria das pessoas depende de dinheiro pra existir na sociedade. Só quero marcar que eu não estou associando charlatanismo ao fato de que as pessoas transformam as coisas em serviços, etc.) Mas voltando, eu tenho a impressão subjetiva, de que a gente trata a religião e a astrologia de modos diferentes por uma questão de disputa de poder. A ciência entende que a religião não está disputando campo com ela. Oras, elas não tratam nem dos MESMOS assuntos. A religião já aceitou que não pode se meter nos assuntos "científicos" pra valer. Ela ainda é aceita nos temas mais cosmológicos da ciência, porque eles ainda são místicos pra ciência também. Então ali não tem muita tensão. E em muitos temas um finge que não está vendo o outro, o que ele está fazendo. Ou que essas esferas permanecem separadas na cabeça dos indivíduos. Então, em resumo, a ciência não submete tanto a religião ao seu "fundamentalismo científico" como faz com o que batizou de "pseudociências". (explico melhor o que quis dizer com isso). Já a astrologia, ou a homeopatia, por exemplo, a ciência tem problemas de disputa de poder mais sérios porque existe uma interface maior em que os seus temas se chocam. Então a ciência faz esse tipo de coisa, como chamar essas "visões de mundo" de pseudociência, e fica tentando minar suas explicações sobre a vida e o funcionamento das coisas diminuindo o seu status epistemológico e o das pessoas que partilham essas visões de mundo. E ai entra o que eu chamo de fundamentalismo científico. Tanto a astrologia quanto a homeopatia são visões de mundo. Elas não funcionam dentro do mesmo domínio de "crenças" e métodos que a ciência funciona. Mas a ciência enxerga que ela é a responsável por legitimar todos os campos que tratem de assuntos parecidos com o dela. Ela tem que conferir o selo de qualidade e isso através da mesma metodologia que emprega para seu campo, a científica. Aí, quando algo não se encaixa muito bem dentro do seu método, dos seus domínios, ela diminui, chama de pseudociência, chama as pessoas dessas práticas de charlatãs, e trava uma guerra para extinguir isso do mundo. Você tem que iluminar as pessoas pra que elas saibam que o seu Deus é o verdadeiro. Isso me cheira muito a fundamentalismo e intolerância por uma questão de disputa de poder. É exatamente assim que os fundamentalistas religiosos agem. As outras religiões não se encaixam com as suas verdade, então eles acham que tem que iluminar as pessoas e extirpar aquelas práticas falsas do mundo. Sei lá, tenho a impressão de que ciência ficou muito mimada nesse último século, e ela não sabe mais dividir espaço com outras formas de conhecimento. O status que a palavra "científico" adquiriu, principalmente nesse último século, deu poder demais pra ela. E o curioso nisso tudo é que mesmo tendo uma educação completamente científica, a gente não sabe julgar os assuntos científicos, a crítica a ciência, definir o que é ciência e o que não é. Por isso, muitas vezes esse tipo de desmistificação das "falsas ciências" me parece muito dogmática. Mas pra terminar, e desculpa eu ter me estendido tanto, o que eu quero dizer é que homeopatia ou astrologia são outras visões de mundo. É outro domínio. Elas não precisam do selo de científico ou não científico . Se você, genericamente falando, quer levantar uma bandeira pra mostrar às pessoas que homeopatia não é ciência, ou que astrologia não é ciência, acho válido e tals. Mas levantar essa bandeira ao mesmo tempo que promove uma tentativa de tirar a legitimidade desses campos, de dizer que tudo que a astrologia fala é mentira, ou não é verdade, diminuir a crença do outro, ou diminuir o outro por partilhar essa crença aí, pÔ.... Isso é uma mistura de outras coisas.