terça-feira, 21 de junho de 2016

sementes

Ser novato na escola não é nada fácil. Parece que os grupos já estão completos, e você acaba sendo um estranho no ninho. Quando eu entrei para a 4 série do primário, ganhei uma bolsa de estudos numa escola "melhor" do que minha anterior. E lá fui eu com meu vestidinho azul estampado com lunetas brancas pra primeira aula. Com o passar do tempo, eu comecei a ficar triste naquela escola. Eu não falava nada em casa porque eu não entendia o que estava acontecendo muito bem. Eu achava que era minha culpa. Um dia, eu disse pra minha mãe e pra minha tia: "mãe, eu tenho muita vontade de gritar, de ir pro quintal e ficar lá gritando." Eu falei pra elas que eu queria gritar pra ver se a dor do meu peito ia sair com o grito. Aí eu ouvi elas conversando sobre isso, que era estranho, que existia uma tal de terapia do grito... Pra variar, eu ficava me perguntando por que é que elas não falavam comigo como se eu fosse alguém que pudesse entender a conversa delas... por que eu podia. (huahauhau)
O que estava acontecendo é que acho que um grupo de pessoas da escola não tinha gostado muito de ter uma novata ali. Não sei bem por que, mas algumas crianças não gostavam de mim e faziam questão de deixar isso bem claro. Elas paravam de jogar amarelinha quando eu chegava; elas não queriam brincar comigo, não queriam ficar perto de mim... Eu me lembro que era São João, e a tia estava escolhendo os pares da festa junina, e teve um menino que por um motivo qualquer, talvez, começou a chorar e não queria pegar na minha mão de jeito nenhum. Talvez ele só quisesse dançar com outra pessoa, nem devia ser nada demais, mas como eu sabia que muitas crianças já não gostavam de mim, achei que era por isso. Sei lá. Mas o fato é que a gente embaralha as coisas, e eu ficava me questionando o que é que eu tinha feito pras crianças não brincarem comigo. E aí, eu cheguei à conclusão de que só podia ser por que eu era feia demais. Talvez as pessoas olhassem pra mim e a minha imagem machucasse os olhos delas... Eu era sardenta, e eu me lembro que tinha um menino que me chamava de sarnenta. Então eu achei que era isso. Eu comecei a ficar um pouco paranoica com isso de ofender as pessoas com a minha feiura, eu fiquei um tempão sem me olhar no espelho pra não lembrar da minha imagem e não me entristecer. Eu comecei a ter medos de grupos de pessoas, e eu sempre achava que esses grupos iam me recusar, me tratar mal, por eu ser novata, por eles não me considerarem boa suficiente. Isso fez eu me fechar no meu mundinho. Claro que algumas crianças percebiam a situação, e eram contrárias àquilo.
Aquilo tudo que estava acontecendo eventualmente passou. A professora descobriu, porque minha tia foi reclamar na escola, chamou todo mundo fora da sala de aula e fez todo mundo apertar as mãos e pedir desculpa. Aquilo tinha durado quase um ano da minha vida, e, naquele dia, eu não entendia por que é que a professora me fazia pedir desculpas. Eventualmente, eu e as mesmas crianças que não gostavam de mim, tornamo-nos grandes amigos. Eu nunca achei que elas fizessem alguma coisa por maldade, eu só queria ser amiga delas. Eu não queria mais ser excluída da brincadeira.
Eu não pensei mais nesse episódio da minha vida, não guardei mágoa, mas eu tenho sinais disso. A literatura me ajudou a superar. Conhecer a Eleanor Porter e aprender sobre o jogo do contente foi um verdadeiro alívio. Aprender a transformar o que parece ruim em uma coisa boa. Aquilo foi a melhor ideia que eu já tinha visto na vida!
A minha história ali durou menos de um ano, ninguém me bateu, eu recebi apoio da família, recebi apoio dos professores. Mas imagina alguém que cresce passando por esse tipo de coisa. Imagina alguém que vai pra escola todo dia sabendo que vai ser excluído, que vão gozar com a cara dele, que não vão querer pegar na mão dele na hora de ensaiar quadrilha, que ele não pode ser quem ele é, que ele não pode confiar nas pessoas, que ele não pode se olhar no espelho. Tem uma bola na minha garganta quando eu lembro dessa história, me vem lágrimas nos olhos, me vem aquela angústia, mas não por mim. Eu fico pensando em tantas crianças que passam por coisas muito piores, que se tornam adolescentes tendo essa bola de angústia na garganta simplesmente por serem aquilo que elas são.
Certamente, as crianças não fazem esse tipo de coisa por maldade, elas imitam um comportamento que viram em algum lugar. Não necessariamente dentro de casa.
Desde pequena eu escrevia poesia. Naquele ano, ano em que o Tom Jobim morreu, eu escrevi duas de que não me esqueço. Uma sobre lágrimas, sobre como as minhas lágrimas escorriam pra fazer de mim uma pessoa melhor, como se elas fossem um professor, um aprendizado... e a outra era uma homenagem para o poeta, que dizia aquilo que precisava dizer através das palavras, colorindo o mundo que era cinza, e que não se cala nem com a morte.




cascas

Quando eu tinha uns oito ou nove anos, encontrei um livro na biblioteca da minha cidade (que eu estava obstinada a dissecar) que falava sobre as propriedades dos alimentos, uma dessas enciclopédias de A a Z blá blá. Ali eu tive a ideia de datilografar uma carta para o presidente da república e contar pra ele que as pessoas não precisavam passar fome já que as cascas dos alimentos tinham muitas propriedades nutritivas fantásticas e ignoradas (coisa que eu devo certamente ter lido no livro). Aí eu tentei demonstrar, na carta, não lembro como, que se as pessoas parassem de jogar fora as cascas, a gente teria comida suficiente pra alimentar todo mundo. Pra mim, era bizarro saber que tinha gente passando fome, mas parecia ser uma coisa simples de resolver se cada um fizesse a sua parte.
Pouco tempo depois, me reuni com uma amiga e minha irmã (Julia AndradeGabriella Espirito Castro) e montamos um clubinho - o Clubinho da Amizade -, que arrecadava alimentos para serem doados. A gente conseguiu montar algumas cestas básicas, e minha mãe (Vera Florio) ajudou a gente a distribuí-las porque não conseguíamos carregar sozinhas.
Continuo não suportando a ideia de que vivemos em um mundo onde há pessoas que não tem nem o que comer, e o pior é saber que o motivo não é a falta de alimentos, como eu pensava há décadas atrás. Essa é uma grande e terrível violência contra o ser humano...
Não sei se minha mãe chegou a colocar aquela carta no correio. Hoje em dia, eu testo minha teoria sobre cascas, me alimento com cascas de várias coisas, mas me recuso a escrever sobre isso pro Michel Temer.

domingo, 5 de junho de 2016

Criação, Matrix

Eu  me pergunto por que é que os agentes Smith suportavam a vida na Matrix, A dúvida funciona no primeiro filme até o final. Mas enquanto você não chega lá, continua se perguntando isso. Eles sabiam que aquela merda toda não fazia sentido, quase igual ao que a gente sente a respeito da vida. Empregos, casamentos, dinheiro, sucesso, nada disso faz sentido algum, ou representa alguma coisa. Tudo parte de um joguinho inventado por nós mesmos pra que a gente possa levar as nossas existências. Enquanto a gente esconde isso debaixo do tapete, o que pode acontecer por diversas razões, a gente continua vivendo bem e pode até experimentar a felicidade, algum tipo de completude. E isso funciona pra todo tipo de ideologia: amor romântico, amor livre, democracia, ditadura, etc.

Aí eu pensava que os agentes Smith, talvez,  só suportassem viver na Matrix porque eles tinham poder, o único poder que importaria, no caso, que era saber que a Matrix não era real, ou saber o que era real. Acontece que a galera do Morfeus também sabia dessa parada e, mesmo assim, eles não queriam ficar na Matrix, só que você sabe que depois que os humanos descobrem que a Matrix é mentira, eles querem pular fora. Mas é uma surpresa muito agradável ver que os Smith também queriam saltar fora de lá. O que os autores explicaram no filme, é meio como se eles não suportassem a ignorância dos seres humanos, então queriam ir pra um outro lugar, ou queriam um tipo de poder com amplitude maior, poder sobre algo que eles julgassem digno e respeitável.

Pode ser que isso realmente funcione para os Smiths, mas para os seres humanos a aproximação é um pouco diferente, talvez. Continua, no entanto, girando em torno de uma relação de poder que estabelecemos com o domínio da realidade. Quando eu falo domínio quero dizer nosso poder sobre a realidade, não sobre o entendimento sobre como ela funciona, mas sobre o nosso poder de criar a realidade, e, ao mesmo,  sobre como administramos nossas dúvidas a respeito dela. Os Smiths, o pessoal do Morfeus, eles sabiam perfeitamente como a coisa ia na Matrix. Tava tudo explicado ali.

Desconfio que a nossa busca pela realidade seja o que nos motiva a criar e manter o sentido da nossa própria existência. Saber que se vive em algo como a Matrix, ou saber que se é dominado por uma ideologia, fazendo um paralelo, por mais que isso dê poder em um determinado contexto, mina nossa capacidade de criar nossa própria existência. O que é quase semelhante a não-existir, talvez. Então, a nossa essência humana, precisa se encaixar dentro de uma outra ideologia, onde a busca não seja nula, onde as janelas estejam abertas, onde seja possível ainda criar, ou, onde se tenha uma ilusão não consciente de que isso seja possível.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O cinema é um espelho pra nossa vida,
que acabou virando moldura.

- síndorme do herói;
- coordena como percebemos a passagem do tempo e como nos relacionamos com os momentos no presente, como desfrutamos. os grandes blockbusters mostram as pessoas fazendo coisas legais o tempo todo, não se mostra a vida das pessoas passando, sempre são momentos de conflito, de felicidade, em que uma grande quantidade de movimento se concentra em pouco tempo. a narrativa é cada vez mais ágil, dinâmica, e quando comparamos nossas vidas com essa narrativa tentamos realmente equiparar as duas. percebemos que nossas vidas são sem graça, ficamos frequentemente entediados, não podemos ficar sem desfrutar a vida, ou fazer algo de 'divertido', a observação, contemplação perdeu lugar.
- (junto com as redes sociais) nos faz ter a vontade de compartilhar informações sobre nossas vidas, tornando-as públicas, vistas por todo mundo, fazendo-nos sentir que nossas vidas também são um filme.
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