terça-feira, 26 de outubro de 2010

A canção de dois pianos

Teias de aranha coloridas
sinto o cheiro da madeira trepidando
e tantas cores querendo ganhar vida.

As paletas, o querosene
e o cheiro de tinta
criando mundos.

Vivendo imundos,
lembro-me do cheiro que tinha
o duratex cru,
dois pianos
minha vida passando rápido e feliz.

Nada importa,
e tudo,
e todos.

Existe uma felicidade assim azul que cai do teto,
e enche meu peito,
... e meus olhos.

Eu quero chorar.
Nada importa,
olhares mal interpretados...
a vida que perco lá de fora,
todos os dias encerrada por janelas de concreto.

Do cheiro da madeira
e da tinta eu me lembro bem
dos marceneiros,
da preparação com tinta branca.

Eu me lembro bem dos lugares do passado,
musicado em dois pianos,
e meus olhos cheios d'água... agora enquanto escrevo.

Lembranças não vividas,
imaginadas. Eu as tenho em mim e são como se fossem.

Eu quero pintar os universos
dar voz à minhas mãos,
ainda há tempo.

Nada importa
é sempre hora para a canção de dois pianos
e múltiplos mundos,
e para meus olhos...
a vida.

Um balão caseiro capta imagens do espaço
e volta intacto, mas
nem os cristais ficaram.
Apenas lembranças,
de cheiros, de imaginação,
de bicicletas que foram pelas galáxias,
e de meus olhos...
que viram tudo.

domingo, 24 de outubro de 2010

Baldeação

Numa sala vazia repleta de homens e mulheres
o gosto do papelão e o som da água caindo violenta e esporadicamente.

Eram tão solitários os seus gritos mudos.
Não havia olhares entre os tantos vizinhos que partilhavam a sensação
de roupa molhada e cabelo escorrendo por todo o salão.
Olhares, só para o fundo dos baldes,
mitigados pela ofuscação da superfície aquosa.

Mil solitários em suas ilhas.
Mais da metade dos rostos enfiados nos baldes.
Ouço os gemidos ecoando por todo o apartamento,
dos homens se afogando neles.
Tudo molhava e era só som.

Os baldes vertiam água e uniam-se uns com os outros
para encontrar de novo os rostos dos homens em seus conteúdos.
Uma verdadeira baldeação.

... e tudo que sobrou perto da janela foram baldes pretos de plástico
 comprados em loja barata qualquer.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Dor de fofoca

Como é que pode
tanta gente
pensando tanto ar
respirando tanta coisa
comendo fuligem
sentindo tudo ao mesmo tempo
e tendo pouco tempo pra tudo.

Como é que pode ser
tanto automóvel
e tanto avião
em São Paulo.

Gente que sorri,
que torce o nariz
que empurra
que cospe...

e eu que não tenho o amor das minhas irmãs...
como dói a distância
todas elas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Problema Jurídico

Pareciam ter um buraco no meio do peito
o que falavam e quando emitiam algum som
não era permanente
lhes escapava através de um furo,
que tinham no peito

As pessoas daquela sala
separadas por 32 divisórias
conversavam muito sobre os negócios dos outros

Estava lá e tive medo de ser notada
mirava aquele buraco
e me parecia ser ele mesmo a razão de tanta falta
que havia nelas

Era triste o uníssono do silêncio
pior que ele
as almas que se esquivavam das janelas ausentes
perenes naquelas divisões angustiantes

Parecia ser uma fumaça
que envolvia seus rostos em sorrisos
e disfarçava as vontades que de fato
fugiam delas mesmas

Eram enfadonhamente monótonas
as suas disputas por 32 dinheiros
ridículas se tomadas num cenário cósmico

Lá fora ardia o dia
como sempre
ou teria o Sol se apagado
pra chover torrencialmente no fim?
ele mesmo se desprendia de minhas mãos
através de buracos,
feito areia encharcada
que me interrompia o fluxo da respiração

Sufocava,
sequer notaram...
preocupavam-se em suas baias
com cotações.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Do outro lado da rua
tem um menino olhando
aquela menina nua.
Tem eles dois dançando
e o vento levando
suas vestes.

Já faz tempo
eu me lembro
da presença tua.
Da menina sentada
do outro lado da lua.

Do outro lado da lua
tinha um bigodudo com um violino
e os olhos daquele menino
espiando sua silhueta
e o trovão?

Do outro lado da lua
tinha um glutão e um energúmeno
mas vento nao tinha.

Já faz tempo
eu me lembro
que o outro lado da rua
era onde a lua se escondia.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

vassouristas

Não tenho tido muito o que fazer ultimamente.
Hoje à tarde, quando voltava do almoço, ocorreu-me uma ocupação.
Marcava cinco horas, o relógio.
Passava eu quase que engolindo os raios de sol que me aqueciam os ossos.
Passei por um menino na calçada.
Ele tentava vender vassouras caseiras de palha de porta em porta.

O menino as segurava. Uma dúzia inteira delas.
Entrelaçavam-se umas com as outras e ele as trazia por cima de um ombro magro.
"Talvez eu também possa vender vassouras", foi o que pensei.
O meu pai vendia queijo, eu mesma já vendi missangas, desenhos, pinga.
Mas agora vou às vassouras!

Coloquei-me a imaginar tantas situações ridículas/engraçadas na minha nova profissão: encontrando pessoas importantes que me desprezaram na rua e tentando lhes vender vassouras; indo à casa de amigos queridos; das comadres vizinhas de minha avó; entregando vassouras como esmola na rua.
Vassouras eram a minha nova moeda de troca
É incrível aonde a imaginação vai em pouco mais de vinte segundos.

Reparei na falta de tino comercial do muleque.
Ele não sabia conquistar as pessoas.
Atraí-las para as vassouras.
Traí-las.
Ele não sabia vendê-las!
Talvez porque tivesse vergonha do próprio ofício, ou então das vassouras.

O menino e eu demos a volta no quarteirão e no encontramos quase que em frente da minha casa.
O garoto gritou de longe: "Váááááá-ssouraaaaa" num tom interrogativo.
Por um segundo: "compro ou não compro?" e respondi: "Nã-ãã-o obrigá-ada"
Mas que menino mole!
Nem à mim que tentava ingressar no ramo ele conseguiu convencer.

Fiquei pensando que deveria ter comprado uma vassoura do menino.
Eu o ouvi dizendo ao vizinho que eram vassouras caseiras.
Isso não se vê mais por aí.

domingo, 13 de junho de 2010

Estava lá um carequinha no alto de uma montanha. Aparentava uns 12 ou 13 anos pelo tamanho e proporção do corpo. Pequeno.
Trajava, à moda antiga, calças de um pano piliquento até os joelhos e suspensórios, ambos marrons, mas em diferentes tons. 
Eu sabia que o menino se chamava Milikan. Além da pouca idade aparentava ser uma mistura de Buda com um garoto comum do século XIX. Talvez um Oliver Twist sem cabelos.
Carregava, presa à testa por uma espécie de cinto, uma geringonça metálica. De cada lado da cabeça pendiam dois tubos de ensaio, tão grandes ou maiores que o crânio do garoto.  Formavam um tipo de sistema elétrico com o ânodo e o cátodo. Em cada um dos tubos encontravam-se líquidos borbulhantes e pouco viscosos de polaridades diferentes.

Em torno dele um grande número de pessoas se posicionava, como num rito ou algo parecido. Não consigo definir o tempo dessas pessoas, mas eram todas antigas. Tão antigas quanto o próprio tempo o era naquele lugar. Pelo que podia avistar, faziam experimentos, como todos em sua época. Tratava-se de uma espécie de disputa científica. Parecia-me algo bastante arcaico. Intentavam todos os participantes, criar uma espécie de lâmpada elétrica. Aquele era o local em que se realizava a tentativa do Buda Twist, o alto de uma montanha árida e cheia de pedras.

Alguma coisa aconteceu. Uma explosão! O menino caiu pra trás num tombo em pirueta. Compelido com as pernas que se cruzavam ar, bateu desacordado no chão. De repente não mais eu o avistava no alto da montanha. Eu era ele e via tudo o que ele via. Não havia conflitos de pensamentos entre nós; não disputávamos uma só mente. Nós éramos o mesmo. Era como se eu sempre tivesse sido ele, o careca.

O experimento sucedera vitorioso. A explosão havia criado uma lâmpada que  não era, de modo algum, comum nesse ou naquele mundo. (Se é que são eles diferentes.) Senti uma vontade enorme de descer a montanha e, embora ainda não soubesse o que era aquela lâmpada sentia que ela tinha poderes. Tomada pela atitude e só por ela, resolvi descer do mais alto ao mais baixo. Eu o fazia levitando! Abaixo dos meus pés, escadas, mas eu passava a meio metro acima delas. 


Acompanhava-me uma dama indiana, que também descia levitando. Sabia perfeitamente quem ela era, mas o que me resta dela agora é a impressão mágica e misteriosa. Comunicamo-nos em pensamento. Parecia-me que eram eles uma substância diferente de toda a palavra. Fluida, leve e impossível de definir de maneira compreensível. Eu primeiro soube, mas a lâmpada tornava floridos os campos. Ela promovia uma espécie de higiene energética dos ambientes conforme passávamos por eles. Isso contou-me, em silêncio, a dama indiana. Quase instantaneamente mirei a montanha para constatar que atrás de mim toda ela se ia colorindo com flores amarelas. As escadas pelas quais passava a mais de meio metro de distância iam-se tornando invisivelmente limpas!

Avistava lá de cima, do alto da montanha e enquanto a descia, a imensidão do mar. Azul. Contrastava vivamente com o amarelo das flores que iam surgindo por trás das minhas costas e com a aridez das pedras de toda a montanha. O sol morno e aconchegante fazia sombra no mar e realçava-lhe o brilho azul.  A vista e o silêncio encheram-me de uma paz e um deleite que só experimentara quando em sonhos nos quais explorei todo o sistema solar. 

Uma vontade inquietou-me. Queria, o mais rápido possível, alcançar o mar e contemplar de dentro dele todo o azul. Uma vontade de fundir-me com aquela cor. Ao atingir as águas constatei que eram geladas e que havia uma espécie de monstro ali. Senti-o por entre as minhas pernas, mas não o avistava. Sabia que ele era marrom. Não me causou ele nenhum mal.

Estive dentro do mar, e mesmo que houvesse nele um monstro, toda aquela situação me causava enorme felicidade. Atingi alguma margem bem no meio do mar. Ela surgira como que por uma necessidade de escapar às águas. O monstro me seguia, mas parecia pacífico. A dama indiana também estava lá. Não tenho dela lembranças visuais nesse momento, mas sim,  as de sua presença. 


Não mirei mais as montanhas. Deviam estar cobertas pelo amarelo. Um amarelo suave e doce que me encheria o coração. Não me lembro da lâmpada e no tempo que estive imersa acredito que tenha se perdido. Já era eu outra ou outro e do resto não tenho más recordações.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Bad news

and then...
the sun and all the light
made spirit shadows in the night.

they've passed the time walking
and in the door they'll keep knocking.

oh moon and sun
the good old travellers
making of history bad news of their endeavours.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sobre as consequências do frio no xulé de alguns animais.

Muito boa tarde!
Meu nome é Victória Flório e não gosto de sapos vestidos como gente
tampouco do frio intermitente que os faz usar paletós.
Meu nome o disse e o seu qual é?
Diga se gostas de sapos e se a frieira cruel também o aflige no pé.


domingo, 21 de fevereiro de 2010

Céutemusique.

Explodiram em confeti
dois pássaros que estavam no ninho,
deixando para nós, asas.

Logo no primeiro vôo,
banhou-nos uma chuva achocolatada.
Vi que escorria da boca de guaxinins gigantes,
descobrimos em nós, guelras.

Nadávamos no mar-rom doce,
empurrava-nos para o fundo
o dono do mar.
Sufocávamos, socorreram-nos guarda-chuvas.

Ficamos com eles, partilhamos de sua mesa, travamos batalha.
Adormecemos.
Percebi patas e partimos.
Há silêncio nas fugas.
Não temas nelas a ausência.
Faz tempo bom nas profundezas.

Quem somos agora que tornamos?
As estranhas nos entranham.
Vigiam nossas asas,
fiscalizam-nos as guelras.
Somos abissais.

Quem são vocês que são os nossos?
Agora que tornamos de tudo.
Não nos temam.
Há asas e confeti para todos, creio.

No dia de uma sessão solene,
trouxe em nossa defesa apenas sonhos.
Havia um olho invisível em mim.
Mire-os com ele e não mintas.

Não tenha medo da ausência de palavras.
Não as tema também.
Temos asas, guelras, olhos e provisões.
Um Rei os reconheceria.
Não te escondas, faz tempo bom.












Era o cúmulo Nimbus.

Como o sono e um dia inteiro,
a letárgica tarde passara em forma de cumulus.
Absurdamente preguiçosa.

Umas lagartixas vieram fazer visita,
às moscas lá estava Nimbus.
Pronto para adentrar a madrugada
feito como quem vai dormindo.

Como um dia inteiro com sono,
um cúmulo as nuvens passarem letárgicas.
A tarde absurda, quanta preguiça!

Comem as lagartixas as moscas.
Lá estava Nimbus,
espreitando-as preguiçosamente.
Sonífero, absurdo,
feito quem acorda de um sonho demente.

A corda Nimbus,
agarra-a!
Usa-a, quem sabe,
para laçar esse mundo.



sábado, 20 de fevereiro de 2010

Dois plágios sucessivos e a tarde.

Meia dúzia de elfos valentes,
ouço o violino os incitando agora.
Vontades e suores,
são pequenas criaturas.
Naquela tarde o Sol tocava a montanha,
emitindo um som motorizado.

Ouço um elfo na montanha,
incitando meia dúzia delas.
Agora vontades pequenas
tocam as criaturas.
Violinos valentes
emitem um som suado.
Naquela tarde, o Sol motorizado.

Motores tocados por elfos.
Ouço criaturas incitando a tarde,
emitindo com violinos pequenos
meia dúzia de vontades.
A montanha de sons valentes,
suada de Sol.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Historieta e Historiota.


Maria Historieta era prima de Historiota Joaquina.
Ambas eram filhas de reis com engenheiras
e comiam batatas como todas as boas meninas.

Historieta nascera dentro de uma maleta,
ocasião em que não se ouviu um pio.
Historiota ao nascer era poliglota,
e entoava um grito de dar calafrio.

Deve-se acrescentar que Maria era divina,
ao contrário de sua parente Joaquina.
Ao atingir idade adulta
fugiram para a vida cirsense.
Depois de alguns anos Historiota virou advogada
e Historieta médica forense.