domingo, 20 de dezembro de 2015

Passagens



eu passo por elas,
elas passam por mim
feito maré

quando eu me sentia segura em meio às nossas conversas
quando eu era eu mesma no meio de vocês
mas fugimos, meus amigos
fugimos uns dos outros.

o que passa pelas pessoas
assim que leva o coração embora
já nem sei com quem falo
não sei o que falo

não sei mais quem
sou

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

nosso coração não é nem maior, nem menor que o mundo
a felicidade ou a dor nunca vão caber dentro da gente

saudade

saudade sempre chega
na hora em que precisamos de uma lembrança
pra nosso coração alargar.

saudade é necessária
e dela não há como escapar.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

perceber o eu imerso no meio de tudo

brigas

é um pouco estranho ver as pessoas brigando tanto por aquilo que, no fim das contas, torna-se simplesmente assumir os papéis sociais das outras
a maioria das pessoas se limita a se enxergar, enxergar a totalidade de suas existências como algo limitado a seus papéis sociais
isso leva a um acúmulo de poder ali
o que leva a  disputas

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

mudanças

por que não conseguimos nos enxergar como um ?
parece que a gente sempre procura motivos que nos separam uns dos outros.
a gente descobre uma ideologia libertadora e acha que sabe de uma coisa que os outros não sabem.
aí a gente quer levar aquilo pra todo mundo, porque a gente sabe de uma verdade, e que eles não sabem.
essa coisa que está por trás de "eu sei" e "você não" é o poder que as ideologias dão para as pessoas.
o poder nos distingue uns dos outros.
parece que existe um processo de hierarquização intrínseco associado a essa coisa de "levar uma verdade libertadora para as outras pessoas"; emponderar as outras pessoas.

não é que eu ache que a gente não consegue fazer isso, não é que eu  ache que seja impossível
olho o processo histórico e observo nas sucessivas falhas dos grupos - ou das ideologias quando essas se confundem com os grupos -,  em levar seu projeto de melhorar a humanidade adiante.
o que tem acontecido é uma inversão de valores
é o novo se tornar o velho
quem critica a ditadura se torna ditador
quem critica a individualização se torna individualista.

me parece que a gente precisa trocar constantemente de "bolha", tomar distância constante das coisas pra nunca sair desse processo de descoberta.
eu sinto isso, porque acho que a única coisa que vai barrar esse processo histórico de inversão é o amor no nível dos sentimentos, e a dúvida, a nível existencial, no plano de ações.
confiar demais em qualquer coisa que não seja o sentimento de amor pelos seres vivos, pelas pedras, pelo Sol, me parece uma sementinha para cair na contradição, na separação, na busca pelo poder

*a única coisa sobre a qual eu tenho absoluta certeza é sobre o amor que sinto. aliás, talvez seja o único sentimento real, digamos assim. parece que todo o resto é pensamento, racionalização, e isso tudo é sujeito a ideologias.
ideologias são sempre iguais. elas nos dão a impressão de ir longe, de ir além. em instâncias práticas, elas são úteis, podem ser bonitas, feias. mas bonito e feio são faces da mesma moeda. são ideologias.
não sei se é bem isso.  talvez amanhã eu pense diferente. e isso é ótimo.

** eu acho  "ajudar" uma coisa linda. mas eu tenho questionado muito essa ideia de ajuda. prefiro não pensar que uma pessoa ajuda a outra. eu sinto que o que há entre as pessoas é que estão ambas ligadas para melhoria mútua. e tem processos nos quais somente duas pessoas conseguem se ajudar. isso compõe a base do que penso sobre relacionamentos amorosos, por exemplo.

imagino (não sei) que nós somos tudo a mesma coisa, e muitos dos motivos pelos quais as pessoas acham que precisam ajudar os outros são motivos muito superficiais. e que, por sua vez, promovem mudanças superficiais nas pessoas. as mudanças profundas não são ensinadas. pelo menos acho que não nesse plano aqui que estamos experimentando.
a gente tem ideias que parecem ultrapassar a bolha na qual a gente tá inserido, e isso é absolutamente ótimo. mas tem sempre uma bolha dentro da outra.

tem também aquela questão das pessoas que vivem um processo de negação. elas veem que o mundo tem coisas boas e coisas ruins. e promovem uma distinção entre ambas. elas falam que coisas boas e coisas ruins são a mesma coisa, claro. mas elas preferem negar as coisas ruins. não entrar em contato com elas. nisso existe uma ditadura do sorriso, da positividade. claro. são pessoas lindas. bem intencionadas. mas eu sinto que elas vivem esse processo de negação das coisas. pra realidade mudar a gente tem que se apropriar do mundo. do jeito que ele está. a gente pode entender o mundo se afastando dele sim, mas não é negando a existência, o contato, ou mesmo a observação a distância das tristezas, negatividades, que a gente vai mudar alguma coisa.
assim a gente só muda a própria bolha.







quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

2015

deixamos morrer um rio, que fez do mar sepultura
liberamos para regime aberto morador de rua que ficou preso por dois anos pelo crime de porte de água sanitária e desinfetante
nossa polícia bate em professor
nossa polícia bate em criança
nossa polícia fuzila crianças porque elas são negras
nossa polícia aprende a bater e matar nossa gente
políticos-corruptos-vingativos-chantagistas vagam por aí sob panelaços de aprovação popular
a gente chora




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

sonhos

tenho sonhado insistentemente com tsunamis, lugares paradisíacos,
cachoeiras que correm pra dentro do mar,
com o mar
viagens.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

feminismos

A gente tem essas duas coisas, que estão sempre 'brigando' : sentimento e razão.
A gente ignora o sentimento. A ciência ensinou a gente que pra compreender a 'realidade', a gente deve isolar uma parte sobre como a gente vê o universo, ou a realidade.
Isso não é absurdamente bizarro ?

Os sentimentos são oprimidos. Eles são 'menores'.
Eles são femininos.
A racionalidade é exaltada. Ela é uma maneira objetiva de enxergar a realidade.
Ela é masculina.

A situação, colocada dessa maneira, parece óbvia.
Não ?


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

é a diferença que faz com que a gente tenha escolha
as pessoas lutam pelo direito de ter escolha, que é brigar pra que as diferenças não deixem de existir.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

memento mori

algum dos meus colegas do primeiro ano da faculdade, não sei quem, mas desconfio, pegou o meu caderno e escreveu em uma página distante do resto das anotações

memento mori

não me esqueço. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

presença

A gente tem um incrível poder :  dividir a nossa alma em várias partes.
Sábios estamos quando percebemos que a alegria, enquanto um apreciar os momentos da vida, é uma questão de presença. Só se pode estar presente no presente.
Consigo enviar partes de mim para o futuro (expectativas)
Consigo enviar partes de mim para o passado (memória)
Consigo enviar partes de mim, ou o meu eu inteiro, para o sonho (tudo é incógnita)
Mesmo no agora, consigo enviar partes de mim para viver momentos que eu gostaria de ter (imaginação) 

Mas há algo no presente, no agora, que consegue captar todos os pedaços nos quais podemos nos dividir.
O presente é quem pega os pedaços e os une. 
Talvez o presente também seja capaz de juntar todos os pedaços que somos nós :  todas as coisas. 
Quando conseguimos sentir a presença de todos os seres no momento presente, tudo aquilo que é inexplicável, místico, mas que ao mesmo tempo se revela. Aí é o que acredito que seja o momento mais iluminado de nossas existências.  

* existe alguma coisa que não seja o presente ? nas minhas alucinações, induzidas ou não, eu sempre tenho a revelação de que o presente é o único momento que existe. não sei muito bem o que isso significa. não acho que faça sentido. mas não tô nem aí. 



domingo, 25 de outubro de 2015

caolhos

não existe um eu que tenha dois olhos
o olho que falta são aqueles que estão em todo o resto
a completude das coisas reside na necessidade de completar o nosso olhar com o olhar do outro.


é o olho dos outros o que nos falta.


* não vejo problemas nas ambiguidades
não vejo problemas nos dualismos
nem mesmo na separação
se há algum problema está na aparente oposição que criamos entre duas coisas
existe uma enorme beleza em perceber a junção entre as coisas, o ponto de convergência
onde tudo se torna um.

nossa mente é condicionada a enxergar a separação entre as coisas ?
talvez sim. talvez aqui.
acho que nos cabe aprender com isso, que onde existe separação existe união
e deixar o foco na separação pra nos focar no seu abraço.



terça-feira, 20 de outubro de 2015

Dualidades

Tive alguns sonhos essa noite. Não me lembro muito bem deles. Sei que me fizeram acordar pensando sobre como a sociedade "evolui". Ou, melhor dizendo, como as nossas sociedades tem "evoluído" historicamente. O que me surgiu na cabeça de maneira bem instintiva foi a ideia de guerra. Todas as ideias relacionadas a guerra estão fortemente associadas a nossa ideia de evolução, de um mal necessário como um meio para um bem maior.

Fico pensando como essas ideias bélicas, sobre a guerra e sobre os homens na guerra invadem a nossa vida cotidiana nos mais variados campos. A própria ideia de campo do conhecimento. Isso parece estar ligado a ideia de que existem vários campos de batalha, e uma guerra sendo travada ali. Um determinado modo de pensar suplanta seu adversário depois de uma batalha. Nosso vocabulário - considerando a língua portuguesa -, está todo repleto de termos relacionados à guerra, à batalha, à luta. Você ganha, você perde, você vence. Existe a luta das minorias. Tudo é uma luta. "A guerra contra o câncer". "A guerra contra o analfabetismo". "A defesa da tese". O novo supera o velho. Há sempre a ideia de um vencedor. Alguma coisa fica derrotada depois do embate. Mesmo dentro de nós mesmos, travamos batalhas. Batalhas para nos superarmos, para vencer a dor, o ódio, o egoísmo.

A gente não procurar enxergar os sentimentos de maneira integrada. Por exemplo, a tristeza é oposta a alegria e não é vista como o seu complementar. A tristeza é necessariamente separada da alegria. A gente quer excluir, destruir, esquecer de tudo aquilo que considera ruim, mal, triste. A gente não tem paciência pra procurar enxergar o papel desses sentimentos, forças, energias, no mundo e dentro de nós mesmos. Mas esses sentimentos todos fazem parte do mundo. São importantes. Eles constituem o quadro geral da nossa visão de mundo, ou sentimentos de mundo, digamos assim. Por que a gente quer excluí-los ao invés de entendê-los, compreendê-los? Por que os separamos e só conseguimos identificar que estamos alegres quando não estamos tristes? Como se um pouquinho de tristeza não pudesse fazer parte do nosso estado de alegria. 

um ponto delicado sobre a maneira como enxergamos o mundo, sobre como enxergamos o progresso, ou como construímos a ideia de progresso : a forma beligerante. As coisas não confluem, elas não se encontram. Por mais que "exista" um dualismo, ou que enxerguemos o mundo através dos dualismos, o problema não é o dualismo em si, mas o fato de que as duas forças estão sempre em guerra. Elas movimentam o mundo porque se chocam. Será que é assim mesmo ?

* Enxergamos o movimento no mundo a partir da luta entre forças opostas. Nós não vemos o movimento do mundo na sua confluência. Particularmente falando, sinto que a outra perspectiva em que as forças se encontram é o amor. O amor é oposto da guerra. No amor todas as coisas que parecem opostas e separadas são vistas como uma face da mesma coisa.  Hoje acordei pensando nisso : por que a gente não consegue enxergar o movimento, a mudança do mundo, ou produzir o movimento e  mudança dentro do amor ? Talvez uma resposta para isso seja  a nossa tendência em separar as coisas, levados pela racionalidade, pela mania estruturalista do pensamento racional : dividir para conquistar. Consigo enxergar que isso nos leva a enxergar o movimento do mundo a partir da fluência das forças em choque e não em sintonia. 











domingo, 18 de outubro de 2015

papo com Pedras

Outro dia quando passei por uma cachoeira de água cristalina e azul, fiquei observando longamente uma pedra. Pode-se dizer que trocamos um momento de observação recíproca, eu acho, ou em linguagem mais apropriada, que eu bati um papo com uma pedra. Aprendi da pedra. E parece que quanto mais eu observava, mais aprendia.
Ela é uma pedra que fica bem no caminho por onde a água cai. Uma dessas que ajuda a formar a queda da cachoeira. Bem grande, talvez não tão grande quanto uma montanha. Mas ainda assim, imponente. Essa pedra me ensinou algo que nunca vou esquecer sobre a sabedoria milenar : paciência.

Fiquei observando ela ali, paciente, esperando a água passar sempre com pressa. de chegar ao chão. Você está meio acostumado a ver a pedras imponentes mais ou menos do mesmo jeito de sempre. Elas parecem nunca mudar. Parecem ser duras. Resistentes. Mas se você observar bem dentro do coração das pedras vai ver que elas são seres bem suscetíveis a mudança, e que, ao contrário do que se pensa, não são inertes. As pedras são pacientes. E elas tem uma sabedoria muito grande sobre o amor.

Elas pacientemente vão levando suas existências interagindo com os elementos capazes de promover mudança em seu estado físico. A água é um desses elementos. Ela passa impaciente pela pedra. Fazendo estardalhaço quando cai no chão, quando bate na pedra. A Pedra nunca reclama do barulho que a água faz quando bate nela. Ela nunca reclama. Só deixa a água passar. E enquanto a água passa, ela se transforma. Sua transformação muda também o modo como a água passa por ela. E assim, a pedra vai se transformando, compreendendo a natureza dos outros elementos, e compreendendo a si mesma em todo esse processo de transformação que é a vida.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

suicídio

o suicídio é o ato último e, talvez, o último ato de rebeldia.
covarde, espero que a morte me chegue por outras mãos
e por que não ?
não há em mim infelicidade
há uma mistura de curiosidade quanto ao imaginário e tédio quanto ao imaginado.
suicídio. por que não ?
por que tentam a tanto custo evitar, mascarar, esconder essa possibilidade ?
faz parte da vida o fato de que a vida está para a morte.

existe um prêmio por bom comportamento no final ?
por que temos que viver essa vida ? a gente pode escolher quando dormir, mas não pode escolher quando morrer ?
quem é que disse que a morte é o fim ?
por que temos que esperar por ela ?



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Formação dos risos

Rio do tombo
quando trombo no rio
como uma tromba d'água.

O rio do tropeço é um rio raso.
E o riso do tropeço é raso também ?
O rio é mágico, o riso é lindo !

O rio se faz no tropeço,
Ele vai indo, descendo, xuando.
Quando o rio se ria, me rio eu.
E vai tudo rolando por água abaixo feito um tombo.
Riando !


*Para aqueles que dizem : "caiu, tem que levantar"
Eu digo "caiu, tem que rir". Sou dessas pessoas que caem, tropeçam, se estatelam no chão e ficam lá jogadas rindo da própria sorte. Alguns diriam má-sorte, mas eu digo "tem sorte melhor que terminar tudo no riso ?"

terça-feira, 6 de outubro de 2015

palavras

palavras. gosto, acho interessante, mas não confio muito.
palavras são uma redução.
é mais ou menos como se a gente pegasse um pacote de coisas, sentimentos, impressões, e dividisse em pequenas partes no intuito de estabelecer comunicação.
processo deveras complicado : primeiro a pessoa que fala separa o que ela quer dizer em partes. a pessoa que ouve interpreta parte por parte e tenta unir tudo depois.
quanto ruído existe !
poderia ser mais simples : levar o seu coração junto a outro coração e deixar os corações fluírem por aí. talvez o que flua sejam os fluxos dos corações e não propriamente corações. mas qual a diferença entre essas coisas?

tenho acompanhado discussões de grupos por aí. é triste. há grupos que pregam o amor, o respeito enquanto que suas discussões....  vejo que as discussões dentro desses grupos não caminham bem nessa direção. quando alguém aparece com uma ideia diferente, que soa preconceituosa para aqueles que consolidaram uma determinada maneira de pensar, eles são atacados. não existe compaixão, paciência. as pessoas deixam o ódio fluir.


disse ao meu amigo que "as coisas vão fluir quando a gente deixar de se focar nas caixinhas de conceitos, na separação entre as coisas, nas palavras". ele me diz que "não se pode chegar pra um grupo e dizer : gente vamos agora nos comunicar com nossos corações". é. talvez não. mesmo pra mim, que persigo isso, não é simples. a gente se comunica com o coração, mas duvida das respostas que recebe. ás vezes, se deixa dominar pelo medo, e volta pro modo normal de operar. porque a comunicação com o coração pede que você saiba se comunicar com o seu próprio coração. e isso é coisa rara. como a gente pode dizer que discussões em grupo levam a transformações pessoais, quando as pessoas não aprendem nem mesmo a se se ouvir ?

não vejo como ensinar as pessoas a realmente se escutarem dentro de um modelo que foca na discussão de assuntos que elas aprenderam a enxergar como sendo algo externo a elas, e muito menos usando palavras como veículo pra isso. as palavras põe o foco de qualquer discussão nas caixinhas de conceito, na separação. estou me repetindo.

acho que como somos o todo, quando a gente muda a si próprio, o nosso íntimo, a gente muda o todo também. por isso, não entendo muito bem esse foco das pessoas em mudar o resto que não elas próprias. é que a gente consolidou a nossa visão de mundo desse jeito, com a separação, a outrificação. e acredito até que seja um aprendizado muito grande pra gente se enxergar como partes do todo. acho que temos que experimentar e aprender nesse mundo, desempenhando os papéis de maneiras que façam o todo "progredir", digamos assim. mas essa palavra progredir é ruim. então, dentro disso, mudar a si próprio é um esforço e um exercício de mudança para o coletivo.

mas se a gente pode aprender com a separação, então também deveria existir aprendizado significativo dentro desse modelo das palavras.  não faz sentido viver uma vida tentando se esquivar dela ou não dando presença aos momentos. esse modelo das discussões. faz sentido localmente, para nossas existências particulares. mas, para mim, o que faz sentido no sentido holístico, e digamos na essência de uma "realidade" é esse modelo de comunicação do coração. você veja que por dois motivos nem eu consigo explicar muito bem o que quero dizer com tudo isso : minha falta de habilidade para explicar o que estou sentindo; e a falta de palavras para traduzir isso de maneira precisa. mas, ainda assim, sei que o que estou dizendo é compreensível para aqueles que vão além das palavras.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Olimpiadas Científicas


No sistema de olimpíadas científicas, em sua espinha dorsal, permanece e prevalece a questão da competição. As crianças são muito legais e lindas, etc. Elas talvez tentem burlar esse esquema porque colaboram muito entre si. Mas cada uma delas quer ganhar, superar o outro, superar a si próprio.
Enfim, as crianças fazem o máximo q podem. Eu sempre desconfiei de alguns aspectos da olimpíada, mas durante muito tempo tentei encarar como uma forma mais democrática, saudável e participativa de aprendizado. Especialmente se comparada ao modelo tradicional da escola. As crianças aprendiam a desenvolver a autonomia sobre si mesmas, sobre o que queriam estudar e como queriam estudar. Além de ter a oportunidade de conhecer pessoas de outros lugares do país com os mesmos interesses, vindas de contextos culturais distintos.

Podem participar da olimpíada crianças do país todo. De qualquer escola. Assim a gente tem a impressão de que o negócio é muito justo, porque qualquer um pode. Assim, crianças pobres,  que frequentam escolas públicas ou particulares teriam as mesmas chances. O que acaba acontecendo é que a gente tem a impressão de que a olimpíada é um treco legal porque algumas crianças pobres tem a chance de ingressar em boas escolas, e boas universidades, caso demonstrem um desempenho excepcional na olimpíada.

Aí o que acontece é que essas poucas crianças são incorporadas ao universo de uma elite. No fim, a olimpíada continua sendo uma competição que solidifica o poder das elites na sociedade porque ela não promove igualdade. Ela promove o acesso de alguns poucos a uma elite, mas não dissolve a elite. Apenas há algum tempo percebi que não concordo com instituições que promovam pessoas pobres ou sem escola, com menos oportunidades, digamos assim, à uma elite. Pra haver igualdade e justiça no mundo as elites tem que ser dissolvidas. Não existe elite quando existe igualdade. Não são todos que fazem parte da elite quando existe igualdade, porque a ideia de elite só faz sentido quando existem diferenças (nesse sentido social, econômico e político, etc).

A olimpíada consolida e justifica a elite. E ainda por cima o ingresso de alguns poucos estudantes com menos oportunidade se faz como justificativa social de sua existência. Mas peraí. A olimpíada se tornou uma fábrica de currículos para alunos do ensino médio no Brasil. Currículos que mandam os alunos de escolas extremamente caras para universidades como Harvard, etc. Essas grandes escolas, grandes empresas, muitas vezes oferecem bolsas a alunos pobres que se destacam nas olimpíadas. Oferecem bolsas porque podem usá-los como propaganda. É claro que tudo isso promove um grande diferencial na vida desses estudantes, mas ainda assim, tenho muitas ressalvas quanto a olimpíada como um processo. 

A gente usa uma exceção, um caso heróico, pra endossar todo um sistema. Se devemos lutar por algo é pra que não existam elites. Por que as elites querem se preservar, e deixar com que 1% dos pobres ingressem em seu mundo parece ser uma justificativa suficiente para que os outros 99% de pobres não se insurjam contra ela. Essa é a lógica do sistema de premiação. 


(Na Alemanha, por exemplo, os estudantes nem se interessam muito por olimpíadas cientificas, em geral. Tenho dois amigos que são professores de física lá. Estive conversando com eles a respeito e a minha suspeita é de que como a educação é muito mais igualitária ou que a sociedade é mais igualitária, e muito mais aberta em vários sentidos, as crianças não se interessam por esse lado da premiação, de integrar a elite, porque não existe uma separação tao grande entre a elite e o resto. Não existe uma elite tão bem delineada. Aqui, no Brasil, uma grande motivação para os alunos é essa de integrar uma elite, de receber esse prêmio. Ganhar uma bolsa. Ser considerado um herói por um pequeno grupo e ingressar o time de alunos que vão pra Harvard, etc. )

sábado, 3 de outubro de 2015

Guerra santa contra a astrologia

Não se pode tirar a legitimidade de um campo pela existência dos charlatões. E aí uma coisa bem curiosa porque o nosso comportamento com relação a isso é contraditório. A gente aceita de acordo coma conveniência. Por exemplo, sabe-se que existem pastores evangélicos charlatões. Promove-se uma cruzada contra ELES, indivíduos, porque se entende que não é legal tirar dinheiro das pessoas MANIPULANDO suas crenças. E isso nunca é legal. Mas a gente não tira a legitimidade da visão de mundo dos evangélicos só porque existem alguns pastores charlatões. Ninguém chega e diz pros evangélicos que o fato do pastor da igreja deles ser mentiroso é uma prova de que a Bíblia ou seu conteúdo são falsos. Nem é minimamente razoável admitir que todos os pastores são charlatões, ou que a visão de mundo dos evangélicos é inválida por causa das práticas desses alguns pastores. Da mesma forma, eu não acho que seja razoável admitir que todos os astrólogos são charlatães ou que a visão de mundo deles é inválida pq existem alguns astrólogos charlatães. (Fazendo uma digressão e extrapolando um pouco, mas o fato de que alguns astrólogos cobram por seus serviços, e note-se que não são todos, é perfeitamente compreensível, visto que os padres pedem dinheiro aos fiéis, a medicina lança medicamentos no mercado e cobra muito caro por eles, os budhistas cobram para que as pessoas façam cursos nos templos, etc. Isso é só resultado de que a maioria das pessoas depende de dinheiro pra existir na sociedade. Só quero marcar que eu não estou associando charlatanismo ao fato de que as pessoas transformam as coisas em serviços, etc.) Mas voltando, eu tenho a impressão subjetiva, de que a gente trata a religião e a astrologia de modos diferentes por uma questão de disputa de poder. A ciência entende que a religião não está disputando campo com ela. Oras, elas não tratam nem dos MESMOS assuntos. A religião já aceitou que não pode se meter nos assuntos "científicos" pra valer. Ela ainda é aceita nos temas mais cosmológicos da ciência, porque eles ainda são místicos pra ciência também. Então ali não tem muita tensão. E em muitos temas um finge que não está vendo o outro, o que ele está fazendo. Ou que essas esferas permanecem separadas na cabeça dos indivíduos. Então, em resumo, a ciência não submete tanto a religião ao seu "fundamentalismo científico" como faz com o que batizou de "pseudociências". (explico melhor o que quis dizer com isso). Já a astrologia, ou a homeopatia, por exemplo, a ciência tem problemas de disputa de poder mais sérios porque existe uma interface maior em que os seus temas se chocam. Então a ciência faz esse tipo de coisa, como chamar essas "visões de mundo" de pseudociência, e fica tentando minar suas explicações sobre a vida e o funcionamento das coisas diminuindo o seu status epistemológico e o das pessoas que partilham essas visões de mundo. E ai entra o que eu chamo de fundamentalismo científico. Tanto a astrologia quanto a homeopatia são visões de mundo. Elas não funcionam dentro do mesmo domínio de "crenças" e métodos que a ciência funciona. Mas a ciência enxerga que ela é a responsável por legitimar todos os campos que tratem de assuntos parecidos com o dela. Ela tem que conferir o selo de qualidade e isso através da mesma metodologia que emprega para seu campo, a científica. Aí, quando algo não se encaixa muito bem dentro do seu método, dos seus domínios, ela diminui, chama de pseudociência, chama as pessoas dessas práticas de charlatãs, e trava uma guerra para extinguir isso do mundo. Você tem que iluminar as pessoas pra que elas saibam que o seu Deus é o verdadeiro. Isso me cheira muito a fundamentalismo e intolerância por uma questão de disputa de poder. É exatamente assim que os fundamentalistas religiosos agem. As outras religiões não se encaixam com as suas verdade, então eles acham que tem que iluminar as pessoas e extirpar aquelas práticas falsas do mundo. Sei lá, tenho a impressão de que ciência ficou muito mimada nesse último século, e ela não sabe mais dividir espaço com outras formas de conhecimento. O status que a palavra "científico" adquiriu, principalmente nesse último século, deu poder demais pra ela. E o curioso nisso tudo é que mesmo tendo uma educação completamente científica, a gente não sabe julgar os assuntos científicos, a crítica a ciência, definir o que é ciência e o que não é. Por isso, muitas vezes esse tipo de desmistificação das "falsas ciências" me parece muito dogmática. Mas pra terminar, e desculpa eu ter me estendido tanto, o que eu quero dizer é que homeopatia ou astrologia são outras visões de mundo. É outro domínio. Elas não precisam do selo de científico ou não científico . Se você, genericamente falando, quer levantar uma bandeira pra mostrar às pessoas que homeopatia não é ciência, ou que astrologia não é ciência, acho válido e tals. Mas levantar essa bandeira ao mesmo tempo que promove uma tentativa de tirar a legitimidade desses campos, de dizer que tudo que a astrologia fala é mentira, ou não é verdade, diminuir a crença do outro, ou diminuir o outro por partilhar essa crença aí, pÔ.... Isso é uma mistura de outras coisas.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

soulf-portrait



sou todos os lírios
mas vivo preso na ilusão de que sou um apenas
quando reconheço os beija-flores
um dos lírios que sou se ilumina
e vejo que não sou eu que sou todos os lírios, mas que todos somos um lírio só, que é o jardim inteiro...

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Sísifo

Se bonde não andasse sobre trilho, diria que o bonde da história é movido pela roda de Sísifo.
Mas é que Sísifo não empurra exatamente uma roda.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

cores dentro dos olhos

quando eu era pequena fechava os olhos na frente do Sol.
eu via que isso me fazia ver várias, milhões de cores dentro do meu próprio olho.
eu olhava pra dentro de um olho e tava lá uma coisa loca. olhava pra dentro do outro e tinham várias cores também.
se eu me focasse dentro de um olho só, eu via que as cores iam se transformando em outras cores. era como se as cores fossem caindo dentro de um túnel, que ia ficando cada vez mais profundo. as cores iam desabrochando em outras cores.
essa era uma coisa que eu adorava fazer quando era criança: olhar para o Sol de olho fechado.
parece que tinham vários eu's dentro de mim naquele momento. eles se revelavam. não sei dizer. às vezes eu achava que tinha 3 pessoas dentro de mim. uma que falava, a outra que discutia com a que falava e uma outra que sabia, sem usar palavras, que nada daquilo fazia sentido. essa terceira pessoa, uma pessoa mais profunda, ela sabia das coisas. mas ela nunca me contava nada de uma maneira direta, mesmo porque ela não interage comigo, nunca interagiu. ela era eu. mas um eu profundo. não sei explicar melhor. mas eu gostava de sentir quando isso tava acontecendo. quando eu percebia a existência dos três eu's aqui dentro.
eu também gostava de torcer o meu corpo todo, ficar de cabeça pra baixo e ver o céu azul nessa posição. também sempre tentei voar. eu achava que podia fazer tudo que eu quisesse. tudo era possível. eu achei isso durante muitos anos. por algum tempo eu meio que perdi a fé nisso. aos poucos. há algum tempo, quando percebi que isso tava morrendo dentro do meu peito, decidi me buscar. hoje eu sinto que estou de volta. é diferente. é mais sereno. estou de volta.

telepatia

Quando eu era criança, uns 4 ou 5 anos, ou, melhor dizendo, desde quando era criança tinha uma certa obsessão por comunicação através da mente. Meu pai ia trabalhar na fazenda e ele ficava muito tempo fora. Eu queria me comunicar com ele. Lembro que ele tinha um par de walkie-talkies. Verdes. Quadradões. Gigantescos. Aqueles walkie-talkies pra mim era o máximo ! Dentro da cidade funcionavam perfeitamente bem. Eu conseguia falar com meu pai quando ele estava há alguns metros de distância. Mas quando ele ia pra fazenda, a coisa não funcionava bem. Era frustrante pra mim ver que o walkie-talkie não funcionava a longas distâncias. Essa bem que poderia ser a comovente história de uma garotinha que pensou em um walkie-talkie que funcionasse a longas distâncias, que depois alguém batizou de celular, mas eu nunca inventei nada disso, e, naquela época já deviam, inclusive existir protótipos de telefones celulares.
Mas a coisa do walkie-talkie não funcionar à longas distâncias me fez pensar em algo muito mais legal que celular : comunicação através do pensamento ! Era bem óbvio pra mim que aquilo deveria funcionar. Eu pensar em alguma coisa e enviar o pensamento pra outra pessoa, que estava à grande distância. Parecia óbvio pra mim que a outra pessoa, nesse caso meu pai, captaria o meu pensamento. Então eu e meu pai começamos a treinar. Embora eu não saiba com que seriedade meu pai estava levando esse projeto e, aliás, até hoje não sei. Mas a gente fazia assim : eu pensava em uma palavra, ou alguma coisa durante o dia e enviava pro meu pai. Quando ele voltava pra casa eu perguntava no que ele tinha pensado, ou recebido. E aí a gente conferia. Não sei quanto tempo durou o treinamento, não lembro se a coisa evoluiu, mas acho que não. Mas eu nunca desisti de me comunicar com as pessoas pelo pensamento. Eu tenho tentado por aí, mas não tem dado muito certo.  Não pra efeitos de comunicação. Mas, pelo menos dentro do meu achismo, penso que consigo captar muitas coisas por aí. Pensamentos que estão soltos no ar e que não são necessariamente direcionados pra lugar nenhum. Esses pensamentos, sentimentos, a gente não recebe na forma de palavra. Sei lá. A antena que a gente liga, digamos assim, é outra.
As vezes eu penso em algumas pessoas de uma maneira tão aleatória, que tenho a impressão de que naquele momento elas estão pensando em mim. Essa coincidência já se confirmou algumas vezes. Mas minha mente, a sua mente são tão aleatórias que essa coincidência toda pode ser só uma coincidência mesmo. É claro que eu prefiro acreditar que não e isso me faz sentir que existe essa comunicação.






as coisas existem porque a gente imagina
ou a gente as imagina porque elas existem ?

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

cascas

Quando eu tinha uns oito anos escrevi uma carta pro presidente da república contando pra ele as maravilhas que eu tinha descoberto sobre as cascas dos alimentos. Aleatoriamente eu tinha encontrado uns livros na biblioteca, umas enciclopédias, em que se falava sobre as propriedades medicinais dos vegetais, frutas, inclusive de suas cascas. 
Naquela época, eu já tinha entendido que algumas pessoas não tinham o que comer, morriam de fome. Eu me sentia muito mal com essa coisa. Alguns anos antes de eu ter 9 anos (não me lembro ao certo), eu e uma amiga até montamos um "clubinho", formado por nós duas e pela minha irmã, que se chamava "O clubinho da Amizade". O propósito do nosso clubinho era que um grupo de amigos (nós) fizesse o bem para outros amigos (x). A nossa primeira e, pelo que me lembre, única iniciativa foi arrecadar alimentos nas redondezas e montar cestas básicas pra distribuir pra pessoas que não tinham o que comer. Daí a gente pediu pra minha mãe levar a gente na periferia da cidade, onde a gente distribuiu as cestas. 
Bom, o tempo passou e eu continuei preocupada com isso. De que não tinha comida para algumas pessoas. E a solução estava muito clara pra mim naquele livro. Por que as pessoas não se alimentavam de cascas ? Eu via que todo mundo cozinhava e não usava as cascas pra comer. Depois que li o livro vi o quanto as cascas eram nutritivas e pensei que se as pessoas não queriam aquelas cascas elas podiam doá-las para que as pessoas pobres tivessem o que comer. Ainda por cima os benefícios pra saúde delas seriam ótimos ! E eu comecei a pensar em quantas cascas eram desperdiçadas no Brasil, e decidi escrever ao presidente contando isso tudo pra ele, pra ver se ele me ajudava com a minha ideia, ou se a minha ideia ajudava ele, que deveria estar preocupadíssimo em resolver essa questão. 

cadelas.

Fico pensando sobre as cadelas. Elas parecem tão cansadas quando estão grávidas. Será que elas gostam de engravidar? Será que elas pensam que poderiam evitar estar grávidas ? Será que elas associam a gravidez com o cio ? Por que será que os cachorros não evitam a gravidez ? Será que isso quer nos dizer que o propósito da vida é a procriação ? Os cachorros parecem estar mais ligados a uma verdade natural (termo ruim, mas não pensei em outro) então me parece que seu comportamento tem mais a ver com uma essência da vida do que o nosso. Por que será que os seres humanos são os únicos por aqui que evitam a gravidez ? Parece ser natural não evitar gravidez. Parece ser natural procriar. O que é tudo isso ?

Por que os seres humanos criaram um monte de sentimentos sobre os atos que levam à gravidez ? Que associam um monte de sentimentos a tudo. Os cachorros certamente tem sentimentos. O que é que diferencia nossos sentimentos dos sentimentos caninos?  Por exemplo, o que sente uma cadelinha ou porca que foi rejeitada por um parceiro sexual?  O que é tudo isso ?

Eu me pergunto : por que é que sinto as coisas ? O que são sentimentos ? Parecem ser uma invenção nossa, que os animais inventaram de um jeito diferente, ou uma invenção da natureza da qual se apropriam de um jeito diferente. O que é tudo isso ?

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

crianças índigo e a salvação do mundo.

Sempre me pergunto o porquê dessa crença que nasceu em algumas comunidades de que as crianças que estão nascendo hoje em dia são seres iluminados, de coração puro, que conversam com animais. Crianças índigo. Essa coisa toda. As crianças sempre foram seres "iluminados" que conversam com animais (risos). Apesar de nunca terem sido azuis. Antigamente as crianças eram vistas como seres que deveriam apenas obedecer; escutar,etc.  Já os mais velhos eram vistos como sábios. Os mais velhos reuniam características muito importantes para as pessoas daqueles tempos de antigamente.

O que aconteceu com os tempos ? Parece que, na mesma proporção em que essas crianças são idolatradas por membros de culturas hippies revival, e por membros das comús da era do capitalismo verde, etc., os idosos, que antes eram arautos da sabedoria, renasceram desvalorizados, jogados no vento (mas pela sociedade, de modo geral). As crianças são impetuosas, desafiadoras, enquanto que os velhos são passivos.

Existe uma conexão entre a mudança dessas duas imagens ? Vou tentar explorar essa possível conexão através do fato de que a crença nas crianças índigo parece estar intimamente ligada à necessidade imediata de uma transformação no mundo. Essa mudança viria das mãos, e ideias das crianças índigo. Mas se o mundo precisa de uma mudança, então por que essa mudança, ou as ideias para essa mudança, não podem mais vir das mãos dos idosos?

Andei reparando sobre o tipo de notícia, informação que aparece na mídia veiculada a pessoas mais velhas. Não tenho dados, mas diria, que, na maioria das vezes que falam de idosos, falam também sobre doenças degenerativas; Alzheimer; demência; casas de repouso; problema do coração; artrite, "acabe com suas rugas"; artrose; solidão. Enfim, parecem ser só coisas que denigrem a velhice, os velhos. Coisas pra evitar parecer velho. O próprio termo velho é muito ruim. Idoso é mais conveniente. Poucas pessoas gostam de ser lembradas sobre sua coleção de anos.

Muitos enxergam os velhos como pessoas frustradas com a dureza do mundo. Eles perderam a capacidade de sonhar, etc. Como a revolução, a salvação do mundo, pode vir de alguém demente ? De alguém que deixou de sonhar ? Alguém com artrite e artrose, dor de coluna e que não consegue travar lutas mirabolantes na velocidade de um roteiro Hollywoodiano com extraterrestres e seres verdes gigantes da Marvel ? Alguém pode enxergar sabedoria, etc. em alguém cuja imagem é associada a tantas coisas negativas ? E mesmo quando há sabedoria, ela permanece perdida ali no canto da mente idosa, porque é também demente, não confiável. Os idosos aceitam como auto-imagem aquela que transmitimos para eles e reproduzem os comportamentos que lhes atribuímos. Não sei muito bem como essa roda se retroalimenta, mas vejo que é bem comum na sociedade as pessoas aceitarem como auto-imagem aquilo que vêem nos filmes, nas revistas.

Voltando à mudança do mundo. Se sentimos a necessidade de salvação para o mundo, onde está tudo perdido, sem esperança, existe algo mais natural do que enxergar a salvação como algo fora do mundo ? Algo novo, que está nascendo. Esse anseio é projetado nas crianças, na maneira como elas enxergam o mundo. O modo como enxergamos a realidade parece ser um espelho do modo como nossos pais a vêem. O modo como os pais vêem a realidade é aquele modo solidificado na alucinação coletiva de todos nós que nos vemos sem asas, e que acreditam que não podem voar. As crianças carregam os valores que transmitimos para elas. Elas são um espelho de nossas expectativas. A gente enxerga o mundo de uma maneira e o projeta para as crianças. Hoje em dia é relativamente valorizado entre comunidades alternativas ser impetuoso, desafiador, faltar aula, ser independente intelectualmente. As crianças absorvem esses valores e moldam sua auto-imagem conforme.

E quanto a imagem dos jovens e crianças ? Eles parecem construir sua auto-imagem muito amparados pela música, pelos sentimentos que a música exala. Imaginem vocês viver em um mundo em que o Alesso chega e te diz : "We go hide away in day light. [...] Can't be one of them [...] we are a different kind, we can do anything. we could be heroes". No videoclip da mesma música você vê o Alesso salvando o que seriam um monte de crianças com poderes especiais e presas, maltratadas. E o Alesso vai lá pra libertar essas crianças. Forte, não ? Você houve o Avicii desde criancinha dizendo assim : " Come on people, we have all seen the signs. And we will never get back to the old school, to the old rounds, it's all about the new found, we are the newborn, [...] we are the future and we are here to stay".  Isso é tremendamente forte. Você vê o clip do Avicii e as crianças aparecem lá vivendo sozinhas no meio de estranhos, na maior amizade com os cavalos. A maioria das pessoas da cidade em que você está são pessoas velhas, de aparência estranha, que te estranham, te tratam meio mal, são reaças pra caramba, e você com a aparência naturalmente mega descolada. Até que um belo dia vocês encontram um monte de outras crianças descoladas que tem marcas, tatuagens iguais às suas em seus corpos. Ali você se sente bem e vai embora da sua cidade pra atrair boas vibes, e mudar o mundo dançando tecno numa balada rave.  

Isso se soma ao fato de que nossa sociedade atribui um grande valor ao novo. Permita-me até a chatice de colocar que isso também está associado a valores da sociedade de consumo. Aquilo que é novo é maravilhoso. O velho tem bolinhas, tem defeitos, está estragado, desbotado. O tempo tem uma ação nociva sobre as coisas. A gente aprende a ver assim. Nos ensinam a valorizar o novo porque a gente tem que comprar mais. Tem que comprar outro. É assim que gira a parada. Assim, o novo e a renovação tem um apelo muito forte para nós. A juventude, a criança são o novo como esperança de renovação da sociedade.

Mas é razoável admitir então que as crianças de hoje são mais especiais que as crianças da década de 20 ? Da mesma forma, é razoável admitir que os idosos de hoje são decadentes, ao passo que 100 anos atrás eram sábios, respeitados ? Ou seria mais razoável pensar que projetamos a cada tempo nossos valores na imagem que fazemos das gerações ? E que assim estaríamos (o nós que acreditam que eles são crianças índigo) talvez "educando" os jovens para se tornarem essas crianças índigo, ao passo que a sociedade, como um todo, "educa" os mais velhos para aceitar sua decadência. Isso seria cruel. Mas não estou sendo cínica. Acredito que a sociedade está fazendo isso com os idosos.  

O que enxergamos hoje nos velhos, nas crianças devem ser valores profundamente arraigados na nossa visão de mundo. A gente reconhece nas gerações valores do nosso tempo. Não deve existir uma regra: crianças sábias, velhos sábios. Tenho a impressão que não faz sentido enxergar o mundo assim, ou que as crianças estão nascendo para salvar o mundo. Acho que todos somos especiais e que carregamos a semente, a chama da iluminação dentro de nós, não importa nossa idade. O lance com as crianças é que elas ainda não tem a nossa visão de mundo tão consolidada, então, talvez, seja mais fácil pra elas enxergar o mundo como uma coisa fluida, que depende da nossa vontade e imaginação. Para os adultos fica a tarefa de voltar a ver o mundo como crianças, como, aliás, acho que existe até uma passagem na bíblia. "o paraíso é das crianças". Não entendo como os hippies revival caíram nessa armadilha de crianças índigo, Bino ! Porque eles são propensos a enxergar em todos os outros a chama da iluminação. 

*Particularmente, até tenho muitas concepções místicas. Diria que todas as minhas concepções importantes sobre a vida são místicas. Mas o que eu quero dizer é que mesmo sendo bem misticism friendly não convence o meu coração essa coisa de crianças índigo. Eu acho que toda as pessoas podem mudar a natureza da realidade que vêem, sentem. A idade talvez esteja muito mais associada a uma regra moral e estética sobre como cada um de nós deve se comportar para caber no mundo. 




quinta-feira, 17 de setembro de 2015

o que é que tem ?

o que existe no outro de verdade?
como saber o que dentro da pessoa tem?
é o sexo,
a posição política
a visão de mundo
as ideias todas
?
é o que a pessoa diz
pra onde ela viaja
o que ela escreve
o que ela come
é a boca do estômago
ou talvez o coração
são seus amigos ?
é nada disso não
é o olhar !

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Guerra dos salgados.

Eu gostava das festas infantis quando elas tinham docinhos, música pra dançar e crianças de verdade se divertindo. Hoje em dia só tem adultos em seus trajes de fantasia, coxinha brigando com empadinha, empadinha brigando com croquete... É uma verdadeira guerra dos salgados ! E esses salgadinhos todos aí, todos muito parecidos em sua "salgadice", quando você come, viram uma bomba no seu estômago. Uma bomba que explode cheia de ódio e que dá até dor de barriga.

WhatsAppocalipse Zumbi

O WhatsAppocalipse zumbi tem volta ?

As pessoas à minha volta tem uma "extensão" em um de seus braços que só desacopla por completo na hora do banho. Algumas continuam usando ela pra dançar embaixo d'água. Elas acordam quando a extensão manda. Fazem as refeições com a extensão do lado, embora a extensão não precise se alimentar do mesmo tipo de comida que a gente. É a extensão quem diz para as pessoas aonde ir e que caminhos tomar pra chegar lá. As pessoas transferem suas memórias e a memória da raça humana para a extensão, e ela nos diz como, quando e por que nos lembrar. A extensão armazena até mesmo nossas memórias de amigos e parentes. E quando a gente se reúne com eles, nos restaurantes, nos almoços de família, estranhamente eles não estão presentes.

O que a extensão faz com gente como eu, que não tem uma extensão ? Nos ignora. E seus usuários demonstram esse comportamento pra nós. Eles riem quando a gente diz que não tem uma extensão. Eles não acreditam que a gente pode chegar em qualquer lugar, ou mesmo ser feliz sem as várias utilidades da extensão. Eu não vejo mais os olhos das pessoas, que estão quase sempre voltados para a tela. Nos raros momentos em que trocamos olhares, sinto que não olham pra mim. Isso é ser ignorado.
As pessoas ficam ali sorrindo pra uma tela, mas não pra mim. E quando rimos juntos, é por algo que a extensão nos mostra. Quase não rimos mais de nós mesmos. E quando estamos ali, num momento particular, um momento legal, não podemos deixar a extensão de fora. Compartilhamos esses momentos para que ela registre a nossa felicidade.

As pessoas não respondem nossas perguntas, elas fazem um ou outro comentário sem sentido pra fazer de conta que estão com a gente. Balbuciam um sim. Um não. Elas acham que a gente não percebe. Elas acham que nos enganam, e se acham muito espertas por conseguirem estar em dois mundos ao mesmo tempo. Mas elas não estão.

A gente acha que a extensão é só uma "coisa" social e que a gente manda nela. A gente acha que pode parar a qualquer momento. Eu tenho sentido que a extensão tem vida própria. Estamos sendo abduzidos por essas forças alienígenas. Por que, afinal, onde é que essa forma de vida está ? Acho que daqui vamos para a vida em realidade virtual. Há alguns anos, a gente tinha medo de que os robôs inteligentes dominassem a Terra e subjugassem a raça humana. Por fim, talvez, não precisamos de robôs pra sermos subjugados.

Eu sei sobre a extensão porque já estive lá. Naquele mundo em que as pessoas habitam. Naquele mundo em que somos subjugados. Não sei como consegui sair. Até quando vai durar, ou até quando vou durar fora dele, se é que estou, não sei.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

mãos

aconteceu há alguns dias.
vi minhas mãos desconectadas do meu corpo.
eram translúcidas, como me lembro, uma energia, um calor.
tive medo. tentei acordar. foi muito difícil e muito profundo. 
acordei e não sabia se estava ainda de olhos fechados. 
demorei até perceber que minhas mãos já eram outras.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

vidas simultâneas

Hoje a tarde, enquanto eu varria o quintal, encontrei perdida em algum canto da minha mente, imaginação, etc. um pergunta interessante : Considerando que o tempo seja uma entidade que flui continuamente em duas direções (do presente para o passado e o futuro)  e que nós somos seres que vivem várias vidas. Então é justo considerar que pode-se "reencarnar" também em tempos futuros. Por que é que só lembramos das nossas reencarnações passadas?
E se nos lembrássemos de nossas reencarnações futuras, isso acarretaria um problema, porque a lembrança daquilo que fizemos no futuro poderia influenciar nossas atitudes no presente, encerrando em uma prisão que limita presente, passado e futuro.
Seria também pertinente pensar sobre como a existência de multiversos colocaria questões para as lembranças de outras vidas, ou lembranças de vidas simultâneas. Ainda assim: porque só consideramos nossas vidas passadas?

Agora, considerando que seja possível ter essas lembranças do futuro, elas não alterariam, de certa forma, a maneira como vivemos a vida nos conduzindo a produzir os futuros dos quais nos "lembramos" ?

Parece que o avanço da física teórica vai realocando necessidades para religiões baseadas na ciência.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ansiedade de viagem

Conversando com meu amigo, que está prestes a embarcar pra longe, perguntei se ele estava ansioso.
Ele disse que sim, e eu disse a ele que sinto que a ansiedade, nesse caso, funciona mais ou menos como uma esperança de ser feliz. 

Meu amigo me perguntou se eu não fico ansiosa antes de uma viagem. Ansiosa daquele outro jeito, com aquela outra ansiedade, o medo de perder os mapas, de não encontrar os endereços, de não ter reservas em hostels. Essa ansiedade eu realmente estou perdendo com o tempo e hoje eu viajo sem reservas. Sei pra onde eu vou mesmo sem saber dos endereços. Acho absolutamente maravilhosa a sensação de chegar em uma cidade estranha, sem a menor noção de como é o mapa daquele lugar, ou de onde estou, e de tempos depois, guiada pela bondade das pessoas, ou por minhas próprias pernas e pela intuição, chegar a algo como uma casa. Hoje eu sinto o mundo mais como uma casa e as pessoas como pessoas que eu conheço. Aliás, ainda não é totalmente assim, nem todo dia é assim, mas vai se tornando mais e mais natural a cada dia. A minha ansiedade de viagem se parece mais como a ansiedade de um filho que retorna pra casa dos pais depois de muitos anos, ou meses, mas, no caso, sem nunca ter estado naquela casa. É uma ansiedade do encontro. O encontro com um lugar que conheço apesar de nunca ter estado nele antes, o encontro com pessoas que conheço, mas que ainda não sei quem são. E quando reconheço a casa nos lugares e nas pessoas, se ilumina meu coração. 

O amigo me disse que a parte mais aterrorizante é a do aeroporto, dos mapas, mas eu digo a ele : você não tem que fazer nada disso. Se você se escutar, aos poucos vai sentir o que quer fazer e vai ver que não precisa de mapas para encontrar os lugares, nem de celulares para encontrar as pessoas. Isso não deveria soar como uma receita, mas acredito que nosso coração vai sempre encontrar o coração dos lugares e reconhecer o coração nas pessoas. 




Sentimentos sobre a escola.

Considerando que a nossa vida escolar vá dos 4 aos 22 anos, que o ano letivo tenha a duração de 200 dias, cada um com 5 horas de aula, passamos na escola, ao todo, 18 anos, ou 3600 dias, o equivalente a 18 mil horas. (em um universo de 6480 dias e 102 mil horas de vida desperta - considerando 8 horas de sono por noite).


18 mil horas ! Salvo engano são quase 20% do nosso tempo. Tudo isso passamos dentro de uma escola. Considerar a manipulação estatística já parece indicativo suficiente de que investir nesse tempo é uma coisa seriamente importante. Estar presente, desfrutar 20% dos momentos de nossas vidas é importante. Eu me pergunto se estamos presentes na escola; se as crianças estão presentes ali; se nos encaixamos com a proposta que a escola tem para nós. Eu me pergunto se existe uma justificativa que valida o abismo entre o que as crianças querem da escola e o que queremos que a escola seja para elas. Por que a gente acha que pode enfiar um monte de baboseira na cabeça das crianças mesmo que quase toda criança do planeta nos dê sinais bem claros de que ela acha a escola, no mínimo, chata ? Por que a escola regular parte do pressuposto de que os adultos são os únicos que tem alguma coisa para ensinar e|ou compartilhar ?


Entre os 4 e os 22 anos. Todo o tempo dentro da escola se passa justamente na fase de nossas vidas em que estamos conhecendo o mundo; conhecendo as pessoas; aprendendo a nos relacionar com o mundo e com as pessoas. "Depois dessa idade já passou da hora de aprender", nos dizem. Não é pouca coisa o que se tem que absorver entre os 4 e os 22 anos. Especialmente porque a gente não constrói aquelas relações naturalmente, como seria de se esperar. Alguém vem e diz pra gente : "essas relações SÃO assim !" , "Você precisa fazer ASSIM ! " , "É assim ! " Ou então nem te falam sobre certas coisas, como, por exemplo, sobre sexo. Quando falam, é ou de um jeito pudico ou de um jeito excessivamente mecânico. Quase nunca é natural e despretensioso. Depois esperam que a gente encare tudo de uma maneira saudável e natural. Te respondem perguntas que nunca passaram pela sua cabeça. Você nem entende por que te dizem aquilo. No começo a gente até se empolga pra ir na escola. É um lugar cheio de amiguinhos, com parquinho. Mas aos poucos a gente vai vendo que a escola não é sobre os amiguinhos, é sobre aquele monte de coisas que não significam nada nas nossas pequenas vidas. Mas você tem que receber tudo com disposição, se possível decorar e, ao mesmo tempo, não se empolgar demais, não sair correndo, não demonstrar suas emoções porque não é legal parecer maluco e é muito mal educado conversar durante a aula. Cobram você sobre o que você decorou, e começam a dar sorrisos pra quem decorou melhor e fazer caretas pra você se os números mostrarem que você não sabe decorar muito bem as coisas.

Esse planeta é tão bonito. As pessoas, quando você olha dentro dos olhos delas são todas lindas ! A escola vem e ensina pra gente que tudo é separado em um monte de grupos de coisas e pessoas, e a partir de então vai começando a nossa obsessão por racionalizar e separar as coisas do mundo. "Dividir para conquistar!" E especialmente a separar aquilo que se pensa daquilo que se sente. E pior, a negligenciar o que se sente. A gente se perde do que sente. Depois dá um baita trabalho recuperar isso. A gente fica confuso sobre o que é mesmo o mundo, a gente se frustra, o mundo fica confuso e a gente continua reproduzindo essa confusão toda por aí. A gente deposita muita expectativas no fato de que ir em um consultório falar sobre a nossa infância com uma outra pessoa com quem a gente não pode ter nenhuma relação afetiva vai resolver essa confusão toda. A gente espera que as crianças engulam uma grande confusão e bem quietas. Sem fazer muito barulho.

Eu sinceramente não sei responder se a escola deve realmente ensinar o que é tudo isso aí que já está no mundo quando a gente chega. Eu não sei responder a nenhuma pergunta. O que a escola deve fazer ? Ás vezes eu penso que deveria ser muito mais simples, mas claro que essas imagens estão sempre associadas a comunidades pacíficas vivendo na mata, sem tecnologia, ou guerras, sem grupos de pessoas, que brigam por direitos, porque as pessoas simplesmente respeitam o fato de que existe vida no outro ser e que é isso que merece atenção, amor e respeito. Parece justo que muitos esforços sejam concentrados para dar uma boa ideia do mundo que criamos, das perguntas que fazemos, da maneira como respondemos a essas perguntas para as crianças. Mas eu realmente não sei se a gente deve impor tudo isso para elas. Sinto que a escola deveria ser destruída. Parede por parede. Não adianta reformá-la e a meu ver não adianta reformar ideias que não deram certo. A gente tem tanto ímpeto, tanta potência pra ter novas ideias por que não usar isso? 

Oscilo bastante entre o radicalismo e posturas mais amenas. Muitas pessoas muito legais e amáveis e lindas fazem muito esforço pra reformar esse sistema, pra reformar a escola, pra fazer a diferença no mundo, pra propagar o amor. E elas estão ajudando a formar seres humanos lindos. Isso acontece dentro das escolas. Os professores, em geral, são seres que tem muito amor dentro de si, muita paciência e muita compaixão. Um problema é que, para cumprir um programa de ensino, eles acabam tendo que falar só sobre como bloquinhos deslizam por rampas e não sobra tempo pra falar sobre amor, alegria, a paciência e a compaixão - apesar que muitos professores deixam isso transparecer de várias formas. Mas, infelizmente, isso atinge muito poucas pessoas e, de certa forma, continua a propagar os valores de que o ensino serve para formar trabalhadores para a sociedade e não seres humanos que estão vivendo uma vida. Sei lá o que é isso. Viver. Eu fico em dúvida. E quando eu fico em dúvida e quando a dúvida gera medo acabo por adotar uma postura mais amena. A dúvida é boa e as certezas são perigosas.

O que eu sinto que é mais dramático na escola é que toda essa imposição destrói a criatividade, oprime, ameaça e que, geralmente, mantemos os comportamentos que herdamos na escola durante a vida adulta. A gente passa a acreditar que pra resolver os problemas tem que adotar uma postura impessoal, sem ligações afetivas, sem amor. Porque a gente aprendeu a reprimir os sentimentos pra manter relações profissionais. Torno a pensar que destruir a criatividade das crianças é uma maneira de torná-las reprodutoras do sistema que apresentamos a elas. Um sistema do qual muita gente não gosta, que nos faz pensar que o nosso melhor papel social é comprar uma calça da Calvin Klein pra salvar o as crianças do "Ziribati" da fome. Eu comecei a entender que na relação contemporânea da escola com as crianças, queremos fazer exatamente isso : torná-las reprodutoras do nosso sistema. 

Esse reproducionismo, essa educação em série de seres humanos pode ter seus lados bons. Deve ter. Imagino e compreendo. Mas nesse processo todo perdemos a oportunidade de compartilhar das ideias das crianças, de usá-las para mudar o mundo, oprimimos a expressão livre de ideias, sentimentos e pensamentos. Perder o contato com as ideias das crianças é o mesmo que perder a oportunidade de sonhar, de inventar e de nos deliciar com isso. O mundo não dá muito espaço para sonhadores bobos e sem noção. Esse "mundo" que está aí precisa de pessoas que tenham os dois pés cravados no chão. (No fundo a gente sabe que a gente inventa o mundo, que ele pode ser tudo o que a gente quiser. Mas a gente está confuso. E toda essa confusão e opressão fazem a gente ter muito medo de girar a roda pro outro lado ou de, pelo menos, entender que existem dois sentidos pra roda rodar.)

Não precisamos de diagnósticos sobre como o ensino vai mal. Sobre como os livros são ruins. Eu nem acho que precisamos olhar para os livros, ou ir até a escola para constatar isso. Está refletido nas ruas. A gente aprende a não olhar pra outros seres humanos jogados nas calçadas. A gente joga lixo no chão. A gente aprende a dar mais valor a uma peça ornamental feita com marfim do que a vida de um elefante. A gente não sabe fazer o imposto de renda. A gente não lembra da história do nosso país. A gente abre vírus no email. A gente acha que saber se comunicar é colocar todas as crases corretamente. A gente não sabe de onde vem a comida que come. A gente faz piada e ri do sofrimento alheio. Certamente há algo que cheira mal no modo como contamos às pessoas sobre o mundo. Ou estaria muito certo ? Afinal de contas, a escola contemporânea está aí pra ditar às pessoas como o mundo está e o que você deve fazer para que ele continue assim no futuro. Nessa perspectiva sou forçada a admitir que a escola é uma instituição de grande sucesso e não como eu tinha pensado no começo uma instituição com problemas incuráveis.


Sinto que temos que prestar mais atenção ao que as crianças que decidiram não frequentar a escola tem a dizer. E se alguém pode apontar o caminho sobre como deveríamos compartilhar coisas sobre o mundo com as crianças, são elas próprias. Afinal, são elas que estão gastando as 18 mil horas da vida delas com isso. A gente já passou dessa fase e provavelmente esqueceu.


* E eu me sinto meio mal de ficar o tempo todo falando o que eu acho o que eu não acho, eu mudo de opinião o tempo todo, eu me sensibilizo com o que as pessoas opinam, como elas defendem as ideias delas, e eu também acho que sempre existem dois lados para as coisas. Eu não acredito muito em certo e errado. Nem essa última frase deve ser totalmente certa ou totalmente errada. Eu não gosto de defender uma única postura ideológica, quero dizer, eu acho que não faço parte de nenhum grupo ou ideologia. Eu fujo de grupos. Eu não acredito em teorias malévolas da conspiração. E eu não sei como resolver essas dúvidas mesmo dentro de mim. Mas tudo bem. Eu estou aprendendo, estou errando. Estamos sempre no processo. Mas, mesmo assim, mesmo com medo, decidi compartilhar esse meu estado mental temporário com as pessoas porque elas sempre me dão ideias legais.

domingo, 30 de agosto de 2015

see

Sometimes I wish I could see you
I can almost touch you in my dreams
but I am always with my eyes wide shut.

Guerra dos Mundos

Uma das coisas que mais me interessa é a relação entre a imaginação e a realidade. Traduzindo em miúdos da vida em sociedade, a relação entre a imaginação e a ciência; imaginação e literatura e imaginação e experiência. A contramão dessas relações, quer dizer, a influência da ciência sobre a imaginação, e assim por diante, também faz parte desse bolo interessantíssimo de interesses. 

Algo especialmente intrigante para mim são os relatos de pessoas que foram abduzidas por alienígenas. Nunca passei por uma experiência desse tipo, de abdução, mas encontrei-me com pessoas, que marcam muito minha vida, inclusive, que se diziam alienígenas e contavam histórias sobre o fim do mundo. Pois bem, esses relatos são altamente interessantes por ocuparem uma delicada fronteira entre o que é real e o que é imaginado, especialmente considerando que a realidade pode ser imaginada e que nosso imaginário cultural constitui uma fonte de informação importante nesse processo. As experiências imaginadas podem ser tão fortes que se constituem como experiências reais, ou, melhor dizendo, que se parecem com o resto das nossas experiências "reais", enquanto estamos despertos. Interessantemente, muitas dessas experiências são relatadas como uma mistura entre sonho e realidade. O que, inclusive, é uma fonte de grande confusão e insegurança para aqueles que as relatam, conduzindo as pessoas a questionar a própria saúde mental. 

Mas desde que lidamos com algo proveniente do nosso imaginário, estamos lidando com a história de nossa cultura. e, aqui, particularmente neste momento e para este assunto, a relação entre imaginação-realidade-história me interessa bastante. Ao que me parece, a maior fonte de informação sobre contato entre humanos e extraterrestres está nos Estados Unidos, e assim essa história permanece no nosso imaginário - nós que absorvemos e somos influenciados pela cultura norte-americana. O maior número de casos registrados, que vieram a público, estejam eles entre os casos duvidosos e os que mereçam estudo sério de estudiosos da mente, por exemplo, estão nos EUA. De forma que essa cultura sobre contatos com extraterrestres é bastante forte no mundo dos anglo falantes. Claro que estudiosos norte-americanos buscaram outros relatos pelo mundo, mas os casos mais conhecidos, quando aconteceram na África, o caso do Zimbábwe (Escola Ariel), por exemplo, as crianças que relataram o encontro eram crianças alfabetizadas em inglês. Por limitações óbvias não consigo encontrar muita coisa sobre esse tipo de encontro na cultura oriental, especialmente, antes de sua imersão no ocidente e no imaginário cinematográfico norte-americano. 

Em um documentário sobre o que aconteceu na Escola Ariel, Zimbábwe, um especialista menciona que esses relatos teriam começado na década de 20, quando pessoas começaram a desenhar a imagem hoje tão conhecida dos alienígenas (olhos negros, grandes e puxados). Naquela época, nos EUA, dois conhecidos astrônomos norte-americanos, trabalhando em observatórios sediados na Califórnia, rediscutiram a possibilidade de existência de outras galáxias, trazendo à tona no século 20 uma questão que atravessou séculos. A implicação direta da existência de outras galáxias é que o Universo seria muito maior do que o que imaginávamos, abrindo possibilidades para um novo tempo de insegurança cósmica. Além disso, na mesma época e dentro dessa mesma discussão dos astrônomos, outro tema dividia opiniões e dados científicos : nossa posição dentro do sistema solar. 

De alguma maneira, eu sinto e acredito em uma correlação entre esses eventos. A discussão sobre a existência de outras galáxias foi razoavelmente divulgada naquela época, pelo menos o suficiente para compor algo significativo no imaginário coletivo. Claro que aqui estou me dando liberdade para usar  termos como inconsciente coletivo ou imaginário coletivo sem muita preocupação com o rigor. Eu não quero colocar em questão, ou não está em questão para mim, a veracidade dos relatos. Quero dizer, eu acredito que as pessoas que relatam esses acontecimentos, claro, não todas, realmente acreditam ter vivido um contato com alienígenas e tem as impressões registradas em suas memórias. O que é mais interessante para mim é como essas memórias foram parar ali e como a imaginação atua nesse processo. Ou seja, como a  imaginação produz a "realidade", e é, ao mesmo tempo, produzida por ela, entendendo como realidade aqui na segunda sentença nosso contexto cultural.

Sobre o relato das crianças, de que a mensagem que os alienígenas transmitiram era sobre o fim do mundo, catástrofes, de que não estamos cuidando bem do nosso planeta, etc. Lembro-me que nas proximidades de 1994, houve uma grande comoção no Brasil pelo acontecimento da Eco 92. Pelo menos no início dos 90, essa discussão era bem conhecida, e como eu devia ter uns 10 anos naquela ocasião, eu posso dizer que houve uma grande comoção entre as crianças. Quero dizer, a gente pintava na escola sobre a Eco 92, a gente falava sobre a necessidade de cuidar da natureza,  e do planeta e um símbolo que a gente reconhecia bem era o do planeta Terra e vários humanos de mãos dadas em torno dele. Minha intenção não é nem de longe sugerir que essa história toda é um golpe, ou de que ela foi produzida pela mídia, e muito menos que seja um delírio infantil. Quero dizer, psiquiatras reconhecidos estudam esse assunto com rigor e seriedade



Ver em : https://www.youtube.com/watch?v=TeXq-ifs5JY





futuros

O mundo no futuro será tudo aquilo que imaginarmos para ele. Eu acredito fortemente no poder da imaginação humana como criadora da realidade e que tudo aquilo que imaginamos cria ou molda a "realidade". (e realmente passa a existir, desde que seja compartilhado por um número grande de pessoas  - ou como uma realidade local para pequenos grupos)

Fico repassando as formas como o sistema capitalista, por exemplo, mexe com nosso imaginário e como, talvez, muito de seu sucesso e sua propagação ao longo dos séculos se devem à relação que mantemos com a nossa imaginação. O mesmo com as religiões, com a ciência e obviamente com todas as coisas que estão por aí moldando a maneira como enxergamos o mundo e como imaginamos o mundo no futuro. Talvez por isso, exista tanta semelhança entre os futuros imaginados por escritores de ficção-científica e o presente hoje compartilhado por nós.

Talvez tudo isso resida na condição humana : nós queremos dar vida àquilo que imaginamos. Ao que chamamos de paixão, impulso, vontade. Por exemplo, queremos que a mitologia religiosa seja realidade e a isso chamamos de fé (claro que o sentimento de fé aqui não se resume e é provavelmente composto por milhares de outras coisas. Mas há algo nele de muito forte que é essa vontade de criar, de dar existência ao que foi imaginado). Tentamos materializar a teoria religiosa de alguma forma e procuramos por sinais das entidades fantasmagóricas pelo mundo pra dar mais sossego pra nossa alma. 

Queremos tornar aquilo que imaginamos parte da vida porque talvez a gente sinta que nesse processo a presença se materializa. A imaginação é real, quero dizer, eu consigo realmente ter sensações muito intensas, ou presentes, nos mundos que imagino, com as pessoas que imagino. Mas falta algo nesse mundo imaginado e sinto que esse algo é a presença em sua plenitude. Não é da presença de um outro que estou falando. Falo da nossa própria presença. Inteira, completa. Presença é estar no momento. Presença é se dar conta de que o fluido da vida e você são a mesma coisa. 

Quando criança sempre acreditei no meu poder de transformar a realidade, de adaptar a realidade, de fazer dela o que eu quisesse. E graças aos meus vários estratagemas e esquemas mentais pra tornar essa crença real, materializá-la, eu nunca me decepcionei com isso. Era algo certo pra mim. É claro que eu imaginava coisas que não se concretizavam. Mas eu sempre dei um jeito de entender - dentro da minha teoria - porque essas coisas não se concretizavam. Por que é que eu não podia voltar ao passado ? Por que é que eu nunca acordava uma garota bonita ?

Há alguns anos, acho que perdi a capacidade genuína de acreditar que posso manipular a realidade. Recuperar essa crença é hoje uma das coisas mais importantes pra mim. Eu sinto que imaginar é tudo e a vida depende da maneira como nos adaptamos ao fluido no qual estamos imersos, ou do qual fazemos parte*. O pensamento, a mente, podem se levar por esse fluido, e podem também manipulá-lo. Estranhamente manipulamos esse fluido quando nos damos conta de que nós somos o fluido (*eu não queria dizer parte dele, porque dá a ideia de separação e não existe separação entre nós, mente, e esse tal fluido, a vida quando a iluminação parece ser um momento, um átimo em que nos damos conta de que somos tudo a mesma coisa. Seja lá essa coisa o que for, ela é tudo.)

E se tudo que existe é esse fluido, que vaga e corre no sentido do que imaginamos, pensamos, construímos, como pode o futuro correr no sentido diferente do que aquilo que prevemos para ele ? Se o futuro está acontecendo agora, pode ser. Tudo pode estar acontecendo agora e a imaginação pode ser uma leitura dos vários tempos que se tocam. Uma leitura do correr desse tal fluido. Não existe quando.

E múltiplos futuros ? Existem ? É como eu disse : existe tudo aquilo que imaginarmos. Mas, na minha "sentiência", não dá pra saber quem veio antes: a imaginação ou a presença. A presença pode ser imaginação ? Tudo pode. Não precisa fazer sentido, e não tem a menor importância.






quarta-feira, 26 de agosto de 2015

infinitos

existem infinitos destinos de viagem no mundo
porque a cada lugar que se vai pode-se retornar infinitas vezes como outra pessoa.


sábado, 22 de agosto de 2015

Feijão

Se tem uma coisa que é certa na gastronomia - seja ela nano, molecular, gourmet, etc. - é que os sentimentos do cozinheiro-a-x são absorvidos pela comida. Ninguém entende muito bem esse esse processo - sejam físicos, químicos ou a Bela Gil - mas sabe que ele existe. Assim, quando alguém cozinha com amor e carinho a comida sai muito mais gostosa. Nesse sentido, uma pergunta que reina no misterioso império culinário brasileiro é porque o "feijão da mãe" é o alimento com o maior potencial de absorção de amor. 8 em cada 10 brasileiros relatam que o "feijão da mãe" é o alimento que mais gostam ou de que mais sentem falta na vida. Daí eu penso que o feijão tem um grande potencial para agir em problemas de humor e sentimentais, especialmente na depressão. 
Mas eu queria entender o que tem no feijão que faz ele ser assim. Perguntei pra minha irmã, que é agrônoma e mãe, mas a gente não chega a um consenso. Será que em outros países existem alimentos tão capazes quanto o feijão ? Será que é porque o feijão é uma leguminosa ? Teria a lentilha o mesmo poder ? 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Outras pessoas

Eu já quis ser outras pessoas
Marina Abramovic encontrando Ulay
Van Gogh pintando "A noite estrelada"
Renoir estudando luzes e sombras
Beethoven compondo "Clair de Lune"
Sigur Rós compondo "Svo Hljótt"
Xavier Dolan filmando "Lawrence Anyways"
quis ser o próprio Lawrence
Avicii e  Alesso discotecando
Lykke Li cantando "I know places"
Michael Ende escrevendo a "História sem fim"
um amigo malabarista
"Lucas e Orelha", que ganharam um programa de televisão





Alesso

quando eu era criança, bem pequena, ficava muito de castigo
alguma bobeira que fazia
e não podia dançar quadrilha; não podia ir passar o fim de semana no lago.
não sei pra que tanto castigo.
a gente não entende. quando a gente é criança tudo é na hora.
aliás, quanto mais novo a gente é mais a gente está presente nos momentos de uma maneira absurdamente intensa. parece que não vai existir depois. a gente não tem paciência.
isso me fazia usar de todas as forças pra sair do castigo e ir "viver a vida" loucamente. 

quando eu entrava de castigo eu ficava desesperada. em algum momento saía pra um canto,
sentava e apertava meu cérebro o mais forte que eu podia.
a cabeça ficava vermelha e não era de raiva (ás vezes era, mas isso é outra história).
eu pensava que se eu pensasse bem forte, o tempo retrocederia até o momento em que eu não estava de castigo, e eu poderia evitá-lo. 
então eu pensava bem forte.

eu via que o tempo não voltava atrás porque continuava de castigo.
eu esperava que minha mãe surgisse perguntando coisas do vestido de quadrilha; esperava que tudo fosse se alterar à minha volta e ficar "feliz". mas, a princípio, eu não pensava que eu mesma fosse mudar porque eu não queria mudar, só queria não estar de castigo. pra isso quem tinha que mudar, na minha cabeça, eram as outras pessoas. 
eu achava meio impossível que o tempo não tivesse voltado, já que eu tinha pensado tão forte, tinha feito tanto esforço. mas nada mudava. minha mãe continuava brava comigo e minhas esperanças de fazer as coisas funcionarem assim iam se frustrando a cada momento.

então eu entrava  em um terrível dilema : e se o tempo tivesse voltado e eu tivesse feito tudo da mesma maneira e tivesse ido parar no castigo de novo?
mas eu como eu podia ter feito tudo igual se eu sabia que aquilo ia me render um castigo?
mas não tinha outra explicação. 
devia ter acontecido isso, ou mais ou menos isso. o fato é que eu tinha voltado no tempo e feito algo pra merecer castigo pra sempre. e pra sempre eu ia permanecer naquele castigo. voltando no tempo e fazendo tudo igual. não importava voltar no tempo, eu continuaria presa no castigo. a certo ponto o castigo se tornara voltar no tempo. não me lembro muito bem como resolvi esse "contratempo" conforme fui crescendo. só sei que nunca mais tentei voltar no tempo com a força do meu pensamento e com o passar dos anos acho que fui trocando essa obsessão  por uma outra : tentar não me arrepender de nada que eu faço, ou que deixo de fazer.   

hoje eu estive pensando nisso, porque acordei com uma grande vontade de ser o Alesso. às vezes eu acordo querendo ser outras pessoas, na verdade, eu acho que a gente é as outras pessoas, mas isso fica pra uma outra conversa. 
o fato é que não adianta pensar forte; explodir a cabeça de tanta força do pensamento porque parece que não tem como eu me tornar o Alesso. o problema desses dilemas, tanto do meu dilema infantil, quanto desse meu dilema pseudo-adulto é que eu espero continuar sendo eu depois de me tornar o Alesso. mas depois de me tornar o Alesso eu sou o Alesso. eu não sou mais eu. na verdade, nós estamos infinitamente nos tornando Alessos por aí, a cada instante. é assim que somos todas as pessoas ao mesmo tempo. porque quando nos tornamos o outro, deixamos de ser nós mesmos.

eu sempre tive muita fé (vou chamar assim) de que tudo o que eu penso e acredito se torna real. a realidade é fluida. então tem que existir uma explicação pra tudo isso :
se eu tivesse me tornando o Alesso, eu não seria mais eu. eu, que queria ser o Alesso, seria uma outra pessoa, um Alesso-x. acho que por conservação de pessoas-que-querem-ser-outras-pessoas ainda existe uma Victória-x-+oo, que continua querendo ser o Alesso-x-+oo e se tornando o Alesso-x-+oo. essa daí é a que vos fala. 










segunda-feira, 17 de agosto de 2015

As alegrias de um coração partido

a gente que tem o coração partido
deve se alegrar
o coração partido vem em vários pedacinhos
pra deixar de lembrança a quem se ama e com quem não se pode ficar

e quanto mais quebrado ele for
maior a generosidade
você pode amar Machu Picchu e o Piauí
e deixar seu coração em todo canto de qualquer cidade

um coração partido nunca está só
feliz eu sou porque um dia descobri isso
e não entrego mais meu coração por inteiro
a um único compromisso.






terça-feira, 14 de julho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

uma maneira de sentir que todos somos um
é se enxergar como um outro
desconectar-se de si mesmo
e o nosso outro então se vê como um com a gente
assim como o nosso outro está conectado com a gente
a gente está conectado com os outros outros

mas uma outra maneira de ver isso de modo bem mais simples é só ver mesmo
mas aí não tem como explicar
e as coisas todas são assim
a gente simplesmente faz e sente
mas quando vai explicar
aí nasce e mora toda a perversão e todo o perigo