domingo, 5 de junho de 2016

Criação, Matrix

Eu  me pergunto por que é que os agentes Smith suportavam a vida na Matrix, A dúvida funciona no primeiro filme até o final. Mas enquanto você não chega lá, continua se perguntando isso. Eles sabiam que aquela merda toda não fazia sentido, quase igual ao que a gente sente a respeito da vida. Empregos, casamentos, dinheiro, sucesso, nada disso faz sentido algum, ou representa alguma coisa. Tudo parte de um joguinho inventado por nós mesmos pra que a gente possa levar as nossas existências. Enquanto a gente esconde isso debaixo do tapete, o que pode acontecer por diversas razões, a gente continua vivendo bem e pode até experimentar a felicidade, algum tipo de completude. E isso funciona pra todo tipo de ideologia: amor romântico, amor livre, democracia, ditadura, etc.

Aí eu pensava que os agentes Smith, talvez,  só suportassem viver na Matrix porque eles tinham poder, o único poder que importaria, no caso, que era saber que a Matrix não era real, ou saber o que era real. Acontece que a galera do Morfeus também sabia dessa parada e, mesmo assim, eles não queriam ficar na Matrix, só que você sabe que depois que os humanos descobrem que a Matrix é mentira, eles querem pular fora. Mas é uma surpresa muito agradável ver que os Smith também queriam saltar fora de lá. O que os autores explicaram no filme, é meio como se eles não suportassem a ignorância dos seres humanos, então queriam ir pra um outro lugar, ou queriam um tipo de poder com amplitude maior, poder sobre algo que eles julgassem digno e respeitável.

Pode ser que isso realmente funcione para os Smiths, mas para os seres humanos a aproximação é um pouco diferente, talvez. Continua, no entanto, girando em torno de uma relação de poder que estabelecemos com o domínio da realidade. Quando eu falo domínio quero dizer nosso poder sobre a realidade, não sobre o entendimento sobre como ela funciona, mas sobre o nosso poder de criar a realidade, e, ao mesmo,  sobre como administramos nossas dúvidas a respeito dela. Os Smiths, o pessoal do Morfeus, eles sabiam perfeitamente como a coisa ia na Matrix. Tava tudo explicado ali.

Desconfio que a nossa busca pela realidade seja o que nos motiva a criar e manter o sentido da nossa própria existência. Saber que se vive em algo como a Matrix, ou saber que se é dominado por uma ideologia, fazendo um paralelo, por mais que isso dê poder em um determinado contexto, mina nossa capacidade de criar nossa própria existência. O que é quase semelhante a não-existir, talvez. Então, a nossa essência humana, precisa se encaixar dentro de uma outra ideologia, onde a busca não seja nula, onde as janelas estejam abertas, onde seja possível ainda criar, ou, onde se tenha uma ilusão não consciente de que isso seja possível.

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