segunda-feira, 16 de maio de 2016

A literatura é muito importante porque através dela temos acesso à experiência de sermos o outro. O quanto isso é poderoso e como isso deve ter afetado as pessoas logo que a leitura se tornou algo popular, com o crescimento do número de pessoas alfabetizadas, etc.
O mesmo vale para o cinema, que proporciona o mesmo tipo de experiência, mas com mais dimensões e capacidades de representação e imersão nessa experiência de ser o outro, se colocar no lugar dele.
Como o cinema tem afetado nossa capacidade de interagir em comunidade? Não se pode dizer ainda, como também não dá pra mensurar como a literatura faz isso. Parece-me que nossa geração, no entanto, é afetada pelo cinema Hollywoodiano de uma maneira particularmente ruim (?). Tenho a sensação de que as pessoas vivem suas vidas como se fosse um filme. O que quero dizer é, queremos que o amor seja como no filme, queremos aproveitar a vida como as pessoas o fazem nos filmes, e videoclips de música. Esses últimos são particularmente nocivos, porque, especialmente nos clips de música eletrônica, as pessoas são sempre colocadas em cenas que se alternam, onde elas estão aproveitando muito a vida, bebendo, sendo um exemplo de beleza, aparentemente sem sacrifício algum. Tudo muda muito rápido, e, tudo está sempre acontecendo. Talvez por isso as pessoas sejam tão entediadas com as coisas reais, talvez por isso elas lhe causem tanto tédio. Talvez por isso tenhamos tantas pessoas deprimidas. A noção de felicidade que se espalha em nossa sociedade (através dos filmes e séries Hollywoodianos) é uma coisas que mais causa infelicidade, a meu ver. E, mais recentemente, tenho notado que também parece estar entre as pessoas das novas gerações uma síndrome do herói. Talvez porque os roteiros de livros e filmes quase que todos adotem esse plot do herói versus o anti-herói. As pessoas tendem a se colocar como heroínas em suas próprias vidas, e precisam que as outras as acompanhem. Você precisa ir na manifestação, onde você tem atitudes heróicas, se esquiva de bombas, quase é preso. Depois você precisa compartilhar essa narrativa com as pessoas que te acompanham nas redes sociais...  você precisa que as outras pessoas acompanhem o filme onde você é o herói da história. Tem também essa coisa desagradável sobre esses atos de heroísmo, especificamente, que é uma caça às bruxas a quem não se comporta da mesma forma. "Ah, se não vai pra luta é covarde!",  "Eu prefiro sofrer as consequências, e expor o que eu penso". Parte disso, talvez se deva também, especialmente entre alguns intelectuais, à negação da teorização exacerbada da vida. "é preciso fazer, ao invés de pensar" "colocar a mão na massa". Parar para refletir não é visto com bons olhos, é "traição à causa" porque você precisa ter um comportamento heróico, passar por intempéries, ir contra o inimigo, sofrer alguns danos. Basicamente, a gente (esquerda principalmente) vive e exige que os outros vivam a vida de acordo com um roteiro de filme de ação B Hollywoodiano. Os jovens românticos, vivem a vida dentro de um roteiro do Nicolas Sparks.





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