segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Olimpiadas Científicas


No sistema de olimpíadas científicas, em sua espinha dorsal, permanece e prevalece a questão da competição. As crianças são muito legais e lindas, etc. Elas talvez tentem burlar esse esquema porque colaboram muito entre si. Mas cada uma delas quer ganhar, superar o outro, superar a si próprio.
Enfim, as crianças fazem o máximo q podem. Eu sempre desconfiei de alguns aspectos da olimpíada, mas durante muito tempo tentei encarar como uma forma mais democrática, saudável e participativa de aprendizado. Especialmente se comparada ao modelo tradicional da escola. As crianças aprendiam a desenvolver a autonomia sobre si mesmas, sobre o que queriam estudar e como queriam estudar. Além de ter a oportunidade de conhecer pessoas de outros lugares do país com os mesmos interesses, vindas de contextos culturais distintos.

Podem participar da olimpíada crianças do país todo. De qualquer escola. Assim a gente tem a impressão de que o negócio é muito justo, porque qualquer um pode. Assim, crianças pobres,  que frequentam escolas públicas ou particulares teriam as mesmas chances. O que acaba acontecendo é que a gente tem a impressão de que a olimpíada é um treco legal porque algumas crianças pobres tem a chance de ingressar em boas escolas, e boas universidades, caso demonstrem um desempenho excepcional na olimpíada.

Aí o que acontece é que essas poucas crianças são incorporadas ao universo de uma elite. No fim, a olimpíada continua sendo uma competição que solidifica o poder das elites na sociedade porque ela não promove igualdade. Ela promove o acesso de alguns poucos a uma elite, mas não dissolve a elite. Apenas há algum tempo percebi que não concordo com instituições que promovam pessoas pobres ou sem escola, com menos oportunidades, digamos assim, à uma elite. Pra haver igualdade e justiça no mundo as elites tem que ser dissolvidas. Não existe elite quando existe igualdade. Não são todos que fazem parte da elite quando existe igualdade, porque a ideia de elite só faz sentido quando existem diferenças (nesse sentido social, econômico e político, etc).

A olimpíada consolida e justifica a elite. E ainda por cima o ingresso de alguns poucos estudantes com menos oportunidade se faz como justificativa social de sua existência. Mas peraí. A olimpíada se tornou uma fábrica de currículos para alunos do ensino médio no Brasil. Currículos que mandam os alunos de escolas extremamente caras para universidades como Harvard, etc. Essas grandes escolas, grandes empresas, muitas vezes oferecem bolsas a alunos pobres que se destacam nas olimpíadas. Oferecem bolsas porque podem usá-los como propaganda. É claro que tudo isso promove um grande diferencial na vida desses estudantes, mas ainda assim, tenho muitas ressalvas quanto a olimpíada como um processo. 

A gente usa uma exceção, um caso heróico, pra endossar todo um sistema. Se devemos lutar por algo é pra que não existam elites. Por que as elites querem se preservar, e deixar com que 1% dos pobres ingressem em seu mundo parece ser uma justificativa suficiente para que os outros 99% de pobres não se insurjam contra ela. Essa é a lógica do sistema de premiação. 


(Na Alemanha, por exemplo, os estudantes nem se interessam muito por olimpíadas cientificas, em geral. Tenho dois amigos que são professores de física lá. Estive conversando com eles a respeito e a minha suspeita é de que como a educação é muito mais igualitária ou que a sociedade é mais igualitária, e muito mais aberta em vários sentidos, as crianças não se interessam por esse lado da premiação, de integrar a elite, porque não existe uma separação tao grande entre a elite e o resto. Não existe uma elite tão bem delineada. Aqui, no Brasil, uma grande motivação para os alunos é essa de integrar uma elite, de receber esse prêmio. Ganhar uma bolsa. Ser considerado um herói por um pequeno grupo e ingressar o time de alunos que vão pra Harvard, etc. )

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