terça-feira, 20 de outubro de 2015

Dualidades

Tive alguns sonhos essa noite. Não me lembro muito bem deles. Sei que me fizeram acordar pensando sobre como a sociedade "evolui". Ou, melhor dizendo, como as nossas sociedades tem "evoluído" historicamente. O que me surgiu na cabeça de maneira bem instintiva foi a ideia de guerra. Todas as ideias relacionadas a guerra estão fortemente associadas a nossa ideia de evolução, de um mal necessário como um meio para um bem maior.

Fico pensando como essas ideias bélicas, sobre a guerra e sobre os homens na guerra invadem a nossa vida cotidiana nos mais variados campos. A própria ideia de campo do conhecimento. Isso parece estar ligado a ideia de que existem vários campos de batalha, e uma guerra sendo travada ali. Um determinado modo de pensar suplanta seu adversário depois de uma batalha. Nosso vocabulário - considerando a língua portuguesa -, está todo repleto de termos relacionados à guerra, à batalha, à luta. Você ganha, você perde, você vence. Existe a luta das minorias. Tudo é uma luta. "A guerra contra o câncer". "A guerra contra o analfabetismo". "A defesa da tese". O novo supera o velho. Há sempre a ideia de um vencedor. Alguma coisa fica derrotada depois do embate. Mesmo dentro de nós mesmos, travamos batalhas. Batalhas para nos superarmos, para vencer a dor, o ódio, o egoísmo.

A gente não procurar enxergar os sentimentos de maneira integrada. Por exemplo, a tristeza é oposta a alegria e não é vista como o seu complementar. A tristeza é necessariamente separada da alegria. A gente quer excluir, destruir, esquecer de tudo aquilo que considera ruim, mal, triste. A gente não tem paciência pra procurar enxergar o papel desses sentimentos, forças, energias, no mundo e dentro de nós mesmos. Mas esses sentimentos todos fazem parte do mundo. São importantes. Eles constituem o quadro geral da nossa visão de mundo, ou sentimentos de mundo, digamos assim. Por que a gente quer excluí-los ao invés de entendê-los, compreendê-los? Por que os separamos e só conseguimos identificar que estamos alegres quando não estamos tristes? Como se um pouquinho de tristeza não pudesse fazer parte do nosso estado de alegria. 

um ponto delicado sobre a maneira como enxergamos o mundo, sobre como enxergamos o progresso, ou como construímos a ideia de progresso : a forma beligerante. As coisas não confluem, elas não se encontram. Por mais que "exista" um dualismo, ou que enxerguemos o mundo através dos dualismos, o problema não é o dualismo em si, mas o fato de que as duas forças estão sempre em guerra. Elas movimentam o mundo porque se chocam. Será que é assim mesmo ?

* Enxergamos o movimento no mundo a partir da luta entre forças opostas. Nós não vemos o movimento do mundo na sua confluência. Particularmente falando, sinto que a outra perspectiva em que as forças se encontram é o amor. O amor é oposto da guerra. No amor todas as coisas que parecem opostas e separadas são vistas como uma face da mesma coisa.  Hoje acordei pensando nisso : por que a gente não consegue enxergar o movimento, a mudança do mundo, ou produzir o movimento e  mudança dentro do amor ? Talvez uma resposta para isso seja  a nossa tendência em separar as coisas, levados pela racionalidade, pela mania estruturalista do pensamento racional : dividir para conquistar. Consigo enxergar que isso nos leva a enxergar o movimento do mundo a partir da fluência das forças em choque e não em sintonia. 











3 comentários:

  1. No budismo se diz que isso é a conexão que temos com o reino dos semideuses, com essa visão das coisas como guerra e competição. E que nem no reino dos semideuses, e nem em nenhum dos seis reinos da roda da vida, é possível haver paz. Por acaso eu tava lendo agora mesmo algo sobre isso:

    "Vemos que, dentro da perspectiva do mundo condicionado, não há possibilidade de paz. Por que? Porque em nenhum dos seis reinos os seres aspiram a paz. As visões de paz que brotam dentro da perspectiva dos seis reinos, dentro do mundo condicionado, são ligadas ao seguinte raciocínio: 'Se todos fizerem o que eu quero, então teremos paz.'; todos nós temos exigências em relação aos outros. Dentro do mundo ordinário, a perspectiva é pessoal. A experiência de paz e satisfação só ocorre se todos se configurarem, mostrarem-se de acordo com aquilo que alguém acha prazeroso, positivo. Mas, como todos somos diferentes uns dos outros, e estamos habitando diferentes reinos, o que serve para um pode não servir para o outro, Dessa forma, o conflito torna-se completamente inevitável."

    Mas como eu não queria só deixar uma mensagem triste aqui, vou digitar outra parte do texto mais pra frente:

    "Na perspectiva da Mandala da Cultura de Paz, não lutamos contra ninguém, não há luta contra coisa alguma. Vemos que a natureza ilimitada está naturalmente presente em todos. A configuração dos seis reinos, que torna impossível a perspectiva de paz, é artificial. Escolhemos e construímos essa configuração artificial pela nossa própria liberdade de construir e manifestar inteligências; os seis reinos são formas coemergentes com as inteligências. Do mesmo modo que podemos jogar um jogo, como futebol ou xadrez, podemos nos vincular a inteligências específicas e operar dentro das visões de mundo correspondentes. O fato de migrarmos de uma experiência para outra nos aponta exatamente a liberdade frente às fixações. Não somos as identidades que surgem com os seis mundos, mas a natureza livre que manifesta a mobilidade incessante de todas as experiências."

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    1. Interessante. =) Mas você sabe que eu não gosto muito, digo, eu gosto, mas não muito de saber as coisas das caixinhas. Eu prefiro lembrar ou captar do espaço. O que você sente instintivamente sobre esse assunto ? você já sentiu ? digo, já acordou do nada e teve uma grande revelação sobre isso ?

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    2. Agora sim comentando a sua perspectiva do bullshismo (huahauhaua, brinks) interessante essa coisa sobre o "eu quero que seja assim". É meio que isso que eu penso sobre interferir na vida dos outros com essa coisa da "ajuda". Mais ou menos meu sentimento sobre a nossa arrogância.Mais ainda sobre essa coisa dos reinos, e esse não é um comentario pessimista, eu concordo com essa coisa de que não existe paz nesses reinos aqui. Esses reinos são mentais, e enquanto a gente não tiver essa paz mental, essa postura a gente vai estar imerso nesses reinos onde a paz é impossível. Aprendi com as pedras que a gente precisa ser paciente e aproveitar pra compreender os agentes da mudança, o papel deles na nossa existência. E de repente esses agentes da mudança são exatamente coisas que a gente despreza como a arrogância. Coisas que a gente quer mascarar, das quais quer se livrar, como as diferenças. Eu estava pensando sobre isso também hoje. Por que existe essa cultura tão forte hoje em dia de mascarar as diferenças entre as pessoas. Pergunta retorica, mas o que eu quero dizer é que não existe problema na diferença, o problema é que a gente atribui status para as diferenças. E isso está relacionado com essa postura belica que a gente tem para o mundo.

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