sábado, 3 de outubro de 2015

Guerra santa contra a astrologia

Não se pode tirar a legitimidade de um campo pela existência dos charlatões. E aí uma coisa bem curiosa porque o nosso comportamento com relação a isso é contraditório. A gente aceita de acordo coma conveniência. Por exemplo, sabe-se que existem pastores evangélicos charlatões. Promove-se uma cruzada contra ELES, indivíduos, porque se entende que não é legal tirar dinheiro das pessoas MANIPULANDO suas crenças. E isso nunca é legal. Mas a gente não tira a legitimidade da visão de mundo dos evangélicos só porque existem alguns pastores charlatões. Ninguém chega e diz pros evangélicos que o fato do pastor da igreja deles ser mentiroso é uma prova de que a Bíblia ou seu conteúdo são falsos. Nem é minimamente razoável admitir que todos os pastores são charlatões, ou que a visão de mundo dos evangélicos é inválida por causa das práticas desses alguns pastores. Da mesma forma, eu não acho que seja razoável admitir que todos os astrólogos são charlatães ou que a visão de mundo deles é inválida pq existem alguns astrólogos charlatães. (Fazendo uma digressão e extrapolando um pouco, mas o fato de que alguns astrólogos cobram por seus serviços, e note-se que não são todos, é perfeitamente compreensível, visto que os padres pedem dinheiro aos fiéis, a medicina lança medicamentos no mercado e cobra muito caro por eles, os budhistas cobram para que as pessoas façam cursos nos templos, etc. Isso é só resultado de que a maioria das pessoas depende de dinheiro pra existir na sociedade. Só quero marcar que eu não estou associando charlatanismo ao fato de que as pessoas transformam as coisas em serviços, etc.) Mas voltando, eu tenho a impressão subjetiva, de que a gente trata a religião e a astrologia de modos diferentes por uma questão de disputa de poder. A ciência entende que a religião não está disputando campo com ela. Oras, elas não tratam nem dos MESMOS assuntos. A religião já aceitou que não pode se meter nos assuntos "científicos" pra valer. Ela ainda é aceita nos temas mais cosmológicos da ciência, porque eles ainda são místicos pra ciência também. Então ali não tem muita tensão. E em muitos temas um finge que não está vendo o outro, o que ele está fazendo. Ou que essas esferas permanecem separadas na cabeça dos indivíduos. Então, em resumo, a ciência não submete tanto a religião ao seu "fundamentalismo científico" como faz com o que batizou de "pseudociências". (explico melhor o que quis dizer com isso). Já a astrologia, ou a homeopatia, por exemplo, a ciência tem problemas de disputa de poder mais sérios porque existe uma interface maior em que os seus temas se chocam. Então a ciência faz esse tipo de coisa, como chamar essas "visões de mundo" de pseudociência, e fica tentando minar suas explicações sobre a vida e o funcionamento das coisas diminuindo o seu status epistemológico e o das pessoas que partilham essas visões de mundo. E ai entra o que eu chamo de fundamentalismo científico. Tanto a astrologia quanto a homeopatia são visões de mundo. Elas não funcionam dentro do mesmo domínio de "crenças" e métodos que a ciência funciona. Mas a ciência enxerga que ela é a responsável por legitimar todos os campos que tratem de assuntos parecidos com o dela. Ela tem que conferir o selo de qualidade e isso através da mesma metodologia que emprega para seu campo, a científica. Aí, quando algo não se encaixa muito bem dentro do seu método, dos seus domínios, ela diminui, chama de pseudociência, chama as pessoas dessas práticas de charlatãs, e trava uma guerra para extinguir isso do mundo. Você tem que iluminar as pessoas pra que elas saibam que o seu Deus é o verdadeiro. Isso me cheira muito a fundamentalismo e intolerância por uma questão de disputa de poder. É exatamente assim que os fundamentalistas religiosos agem. As outras religiões não se encaixam com as suas verdade, então eles acham que tem que iluminar as pessoas e extirpar aquelas práticas falsas do mundo. Sei lá, tenho a impressão de que ciência ficou muito mimada nesse último século, e ela não sabe mais dividir espaço com outras formas de conhecimento. O status que a palavra "científico" adquiriu, principalmente nesse último século, deu poder demais pra ela. E o curioso nisso tudo é que mesmo tendo uma educação completamente científica, a gente não sabe julgar os assuntos científicos, a crítica a ciência, definir o que é ciência e o que não é. Por isso, muitas vezes esse tipo de desmistificação das "falsas ciências" me parece muito dogmática. Mas pra terminar, e desculpa eu ter me estendido tanto, o que eu quero dizer é que homeopatia ou astrologia são outras visões de mundo. É outro domínio. Elas não precisam do selo de científico ou não científico . Se você, genericamente falando, quer levantar uma bandeira pra mostrar às pessoas que homeopatia não é ciência, ou que astrologia não é ciência, acho válido e tals. Mas levantar essa bandeira ao mesmo tempo que promove uma tentativa de tirar a legitimidade desses campos, de dizer que tudo que a astrologia fala é mentira, ou não é verdade, diminuir a crença do outro, ou diminuir o outro por partilhar essa crença aí, pÔ.... Isso é uma mistura de outras coisas.

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