sexta-feira, 18 de setembro de 2015

crianças índigo e a salvação do mundo.

Sempre me pergunto o porquê dessa crença que nasceu em algumas comunidades de que as crianças que estão nascendo hoje em dia são seres iluminados, de coração puro, que conversam com animais. Crianças índigo. Essa coisa toda. As crianças sempre foram seres "iluminados" que conversam com animais (risos). Apesar de nunca terem sido azuis. Antigamente as crianças eram vistas como seres que deveriam apenas obedecer; escutar,etc.  Já os mais velhos eram vistos como sábios. Os mais velhos reuniam características muito importantes para as pessoas daqueles tempos de antigamente.

O que aconteceu com os tempos ? Parece que, na mesma proporção em que essas crianças são idolatradas por membros de culturas hippies revival, e por membros das comús da era do capitalismo verde, etc., os idosos, que antes eram arautos da sabedoria, renasceram desvalorizados, jogados no vento (mas pela sociedade, de modo geral). As crianças são impetuosas, desafiadoras, enquanto que os velhos são passivos.

Existe uma conexão entre a mudança dessas duas imagens ? Vou tentar explorar essa possível conexão através do fato de que a crença nas crianças índigo parece estar intimamente ligada à necessidade imediata de uma transformação no mundo. Essa mudança viria das mãos, e ideias das crianças índigo. Mas se o mundo precisa de uma mudança, então por que essa mudança, ou as ideias para essa mudança, não podem mais vir das mãos dos idosos?

Andei reparando sobre o tipo de notícia, informação que aparece na mídia veiculada a pessoas mais velhas. Não tenho dados, mas diria, que, na maioria das vezes que falam de idosos, falam também sobre doenças degenerativas; Alzheimer; demência; casas de repouso; problema do coração; artrite, "acabe com suas rugas"; artrose; solidão. Enfim, parecem ser só coisas que denigrem a velhice, os velhos. Coisas pra evitar parecer velho. O próprio termo velho é muito ruim. Idoso é mais conveniente. Poucas pessoas gostam de ser lembradas sobre sua coleção de anos.

Muitos enxergam os velhos como pessoas frustradas com a dureza do mundo. Eles perderam a capacidade de sonhar, etc. Como a revolução, a salvação do mundo, pode vir de alguém demente ? De alguém que deixou de sonhar ? Alguém com artrite e artrose, dor de coluna e que não consegue travar lutas mirabolantes na velocidade de um roteiro Hollywoodiano com extraterrestres e seres verdes gigantes da Marvel ? Alguém pode enxergar sabedoria, etc. em alguém cuja imagem é associada a tantas coisas negativas ? E mesmo quando há sabedoria, ela permanece perdida ali no canto da mente idosa, porque é também demente, não confiável. Os idosos aceitam como auto-imagem aquela que transmitimos para eles e reproduzem os comportamentos que lhes atribuímos. Não sei muito bem como essa roda se retroalimenta, mas vejo que é bem comum na sociedade as pessoas aceitarem como auto-imagem aquilo que vêem nos filmes, nas revistas.

Voltando à mudança do mundo. Se sentimos a necessidade de salvação para o mundo, onde está tudo perdido, sem esperança, existe algo mais natural do que enxergar a salvação como algo fora do mundo ? Algo novo, que está nascendo. Esse anseio é projetado nas crianças, na maneira como elas enxergam o mundo. O modo como enxergamos a realidade parece ser um espelho do modo como nossos pais a vêem. O modo como os pais vêem a realidade é aquele modo solidificado na alucinação coletiva de todos nós que nos vemos sem asas, e que acreditam que não podem voar. As crianças carregam os valores que transmitimos para elas. Elas são um espelho de nossas expectativas. A gente enxerga o mundo de uma maneira e o projeta para as crianças. Hoje em dia é relativamente valorizado entre comunidades alternativas ser impetuoso, desafiador, faltar aula, ser independente intelectualmente. As crianças absorvem esses valores e moldam sua auto-imagem conforme.

E quanto a imagem dos jovens e crianças ? Eles parecem construir sua auto-imagem muito amparados pela música, pelos sentimentos que a música exala. Imaginem vocês viver em um mundo em que o Alesso chega e te diz : "We go hide away in day light. [...] Can't be one of them [...] we are a different kind, we can do anything. we could be heroes". No videoclip da mesma música você vê o Alesso salvando o que seriam um monte de crianças com poderes especiais e presas, maltratadas. E o Alesso vai lá pra libertar essas crianças. Forte, não ? Você houve o Avicii desde criancinha dizendo assim : " Come on people, we have all seen the signs. And we will never get back to the old school, to the old rounds, it's all about the new found, we are the newborn, [...] we are the future and we are here to stay".  Isso é tremendamente forte. Você vê o clip do Avicii e as crianças aparecem lá vivendo sozinhas no meio de estranhos, na maior amizade com os cavalos. A maioria das pessoas da cidade em que você está são pessoas velhas, de aparência estranha, que te estranham, te tratam meio mal, são reaças pra caramba, e você com a aparência naturalmente mega descolada. Até que um belo dia vocês encontram um monte de outras crianças descoladas que tem marcas, tatuagens iguais às suas em seus corpos. Ali você se sente bem e vai embora da sua cidade pra atrair boas vibes, e mudar o mundo dançando tecno numa balada rave.  

Isso se soma ao fato de que nossa sociedade atribui um grande valor ao novo. Permita-me até a chatice de colocar que isso também está associado a valores da sociedade de consumo. Aquilo que é novo é maravilhoso. O velho tem bolinhas, tem defeitos, está estragado, desbotado. O tempo tem uma ação nociva sobre as coisas. A gente aprende a ver assim. Nos ensinam a valorizar o novo porque a gente tem que comprar mais. Tem que comprar outro. É assim que gira a parada. Assim, o novo e a renovação tem um apelo muito forte para nós. A juventude, a criança são o novo como esperança de renovação da sociedade.

Mas é razoável admitir então que as crianças de hoje são mais especiais que as crianças da década de 20 ? Da mesma forma, é razoável admitir que os idosos de hoje são decadentes, ao passo que 100 anos atrás eram sábios, respeitados ? Ou seria mais razoável pensar que projetamos a cada tempo nossos valores na imagem que fazemos das gerações ? E que assim estaríamos (o nós que acreditam que eles são crianças índigo) talvez "educando" os jovens para se tornarem essas crianças índigo, ao passo que a sociedade, como um todo, "educa" os mais velhos para aceitar sua decadência. Isso seria cruel. Mas não estou sendo cínica. Acredito que a sociedade está fazendo isso com os idosos.  

O que enxergamos hoje nos velhos, nas crianças devem ser valores profundamente arraigados na nossa visão de mundo. A gente reconhece nas gerações valores do nosso tempo. Não deve existir uma regra: crianças sábias, velhos sábios. Tenho a impressão que não faz sentido enxergar o mundo assim, ou que as crianças estão nascendo para salvar o mundo. Acho que todos somos especiais e que carregamos a semente, a chama da iluminação dentro de nós, não importa nossa idade. O lance com as crianças é que elas ainda não tem a nossa visão de mundo tão consolidada, então, talvez, seja mais fácil pra elas enxergar o mundo como uma coisa fluida, que depende da nossa vontade e imaginação. Para os adultos fica a tarefa de voltar a ver o mundo como crianças, como, aliás, acho que existe até uma passagem na bíblia. "o paraíso é das crianças". Não entendo como os hippies revival caíram nessa armadilha de crianças índigo, Bino ! Porque eles são propensos a enxergar em todos os outros a chama da iluminação. 

*Particularmente, até tenho muitas concepções místicas. Diria que todas as minhas concepções importantes sobre a vida são místicas. Mas o que eu quero dizer é que mesmo sendo bem misticism friendly não convence o meu coração essa coisa de crianças índigo. Eu acho que toda as pessoas podem mudar a natureza da realidade que vêem, sentem. A idade talvez esteja muito mais associada a uma regra moral e estética sobre como cada um de nós deve se comportar para caber no mundo. 




Nenhum comentário:

Postar um comentário