segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Sentimentos sobre a escola.

Considerando que a nossa vida escolar vá dos 4 aos 22 anos, que o ano letivo tenha a duração de 200 dias, cada um com 5 horas de aula, passamos na escola, ao todo, 18 anos, ou 3600 dias, o equivalente a 18 mil horas. (em um universo de 6480 dias e 102 mil horas de vida desperta - considerando 8 horas de sono por noite).


18 mil horas ! Salvo engano são quase 20% do nosso tempo. Tudo isso passamos dentro de uma escola. Considerar a manipulação estatística já parece indicativo suficiente de que investir nesse tempo é uma coisa seriamente importante. Estar presente, desfrutar 20% dos momentos de nossas vidas é importante. Eu me pergunto se estamos presentes na escola; se as crianças estão presentes ali; se nos encaixamos com a proposta que a escola tem para nós. Eu me pergunto se existe uma justificativa que valida o abismo entre o que as crianças querem da escola e o que queremos que a escola seja para elas. Por que a gente acha que pode enfiar um monte de baboseira na cabeça das crianças mesmo que quase toda criança do planeta nos dê sinais bem claros de que ela acha a escola, no mínimo, chata ? Por que a escola regular parte do pressuposto de que os adultos são os únicos que tem alguma coisa para ensinar e|ou compartilhar ?


Entre os 4 e os 22 anos. Todo o tempo dentro da escola se passa justamente na fase de nossas vidas em que estamos conhecendo o mundo; conhecendo as pessoas; aprendendo a nos relacionar com o mundo e com as pessoas. "Depois dessa idade já passou da hora de aprender", nos dizem. Não é pouca coisa o que se tem que absorver entre os 4 e os 22 anos. Especialmente porque a gente não constrói aquelas relações naturalmente, como seria de se esperar. Alguém vem e diz pra gente : "essas relações SÃO assim !" , "Você precisa fazer ASSIM ! " , "É assim ! " Ou então nem te falam sobre certas coisas, como, por exemplo, sobre sexo. Quando falam, é ou de um jeito pudico ou de um jeito excessivamente mecânico. Quase nunca é natural e despretensioso. Depois esperam que a gente encare tudo de uma maneira saudável e natural. Te respondem perguntas que nunca passaram pela sua cabeça. Você nem entende por que te dizem aquilo. No começo a gente até se empolga pra ir na escola. É um lugar cheio de amiguinhos, com parquinho. Mas aos poucos a gente vai vendo que a escola não é sobre os amiguinhos, é sobre aquele monte de coisas que não significam nada nas nossas pequenas vidas. Mas você tem que receber tudo com disposição, se possível decorar e, ao mesmo tempo, não se empolgar demais, não sair correndo, não demonstrar suas emoções porque não é legal parecer maluco e é muito mal educado conversar durante a aula. Cobram você sobre o que você decorou, e começam a dar sorrisos pra quem decorou melhor e fazer caretas pra você se os números mostrarem que você não sabe decorar muito bem as coisas.

Esse planeta é tão bonito. As pessoas, quando você olha dentro dos olhos delas são todas lindas ! A escola vem e ensina pra gente que tudo é separado em um monte de grupos de coisas e pessoas, e a partir de então vai começando a nossa obsessão por racionalizar e separar as coisas do mundo. "Dividir para conquistar!" E especialmente a separar aquilo que se pensa daquilo que se sente. E pior, a negligenciar o que se sente. A gente se perde do que sente. Depois dá um baita trabalho recuperar isso. A gente fica confuso sobre o que é mesmo o mundo, a gente se frustra, o mundo fica confuso e a gente continua reproduzindo essa confusão toda por aí. A gente deposita muita expectativas no fato de que ir em um consultório falar sobre a nossa infância com uma outra pessoa com quem a gente não pode ter nenhuma relação afetiva vai resolver essa confusão toda. A gente espera que as crianças engulam uma grande confusão e bem quietas. Sem fazer muito barulho.

Eu sinceramente não sei responder se a escola deve realmente ensinar o que é tudo isso aí que já está no mundo quando a gente chega. Eu não sei responder a nenhuma pergunta. O que a escola deve fazer ? Ás vezes eu penso que deveria ser muito mais simples, mas claro que essas imagens estão sempre associadas a comunidades pacíficas vivendo na mata, sem tecnologia, ou guerras, sem grupos de pessoas, que brigam por direitos, porque as pessoas simplesmente respeitam o fato de que existe vida no outro ser e que é isso que merece atenção, amor e respeito. Parece justo que muitos esforços sejam concentrados para dar uma boa ideia do mundo que criamos, das perguntas que fazemos, da maneira como respondemos a essas perguntas para as crianças. Mas eu realmente não sei se a gente deve impor tudo isso para elas. Sinto que a escola deveria ser destruída. Parede por parede. Não adianta reformá-la e a meu ver não adianta reformar ideias que não deram certo. A gente tem tanto ímpeto, tanta potência pra ter novas ideias por que não usar isso? 

Oscilo bastante entre o radicalismo e posturas mais amenas. Muitas pessoas muito legais e amáveis e lindas fazem muito esforço pra reformar esse sistema, pra reformar a escola, pra fazer a diferença no mundo, pra propagar o amor. E elas estão ajudando a formar seres humanos lindos. Isso acontece dentro das escolas. Os professores, em geral, são seres que tem muito amor dentro de si, muita paciência e muita compaixão. Um problema é que, para cumprir um programa de ensino, eles acabam tendo que falar só sobre como bloquinhos deslizam por rampas e não sobra tempo pra falar sobre amor, alegria, a paciência e a compaixão - apesar que muitos professores deixam isso transparecer de várias formas. Mas, infelizmente, isso atinge muito poucas pessoas e, de certa forma, continua a propagar os valores de que o ensino serve para formar trabalhadores para a sociedade e não seres humanos que estão vivendo uma vida. Sei lá o que é isso. Viver. Eu fico em dúvida. E quando eu fico em dúvida e quando a dúvida gera medo acabo por adotar uma postura mais amena. A dúvida é boa e as certezas são perigosas.

O que eu sinto que é mais dramático na escola é que toda essa imposição destrói a criatividade, oprime, ameaça e que, geralmente, mantemos os comportamentos que herdamos na escola durante a vida adulta. A gente passa a acreditar que pra resolver os problemas tem que adotar uma postura impessoal, sem ligações afetivas, sem amor. Porque a gente aprendeu a reprimir os sentimentos pra manter relações profissionais. Torno a pensar que destruir a criatividade das crianças é uma maneira de torná-las reprodutoras do sistema que apresentamos a elas. Um sistema do qual muita gente não gosta, que nos faz pensar que o nosso melhor papel social é comprar uma calça da Calvin Klein pra salvar o as crianças do "Ziribati" da fome. Eu comecei a entender que na relação contemporânea da escola com as crianças, queremos fazer exatamente isso : torná-las reprodutoras do nosso sistema. 

Esse reproducionismo, essa educação em série de seres humanos pode ter seus lados bons. Deve ter. Imagino e compreendo. Mas nesse processo todo perdemos a oportunidade de compartilhar das ideias das crianças, de usá-las para mudar o mundo, oprimimos a expressão livre de ideias, sentimentos e pensamentos. Perder o contato com as ideias das crianças é o mesmo que perder a oportunidade de sonhar, de inventar e de nos deliciar com isso. O mundo não dá muito espaço para sonhadores bobos e sem noção. Esse "mundo" que está aí precisa de pessoas que tenham os dois pés cravados no chão. (No fundo a gente sabe que a gente inventa o mundo, que ele pode ser tudo o que a gente quiser. Mas a gente está confuso. E toda essa confusão e opressão fazem a gente ter muito medo de girar a roda pro outro lado ou de, pelo menos, entender que existem dois sentidos pra roda rodar.)

Não precisamos de diagnósticos sobre como o ensino vai mal. Sobre como os livros são ruins. Eu nem acho que precisamos olhar para os livros, ou ir até a escola para constatar isso. Está refletido nas ruas. A gente aprende a não olhar pra outros seres humanos jogados nas calçadas. A gente joga lixo no chão. A gente aprende a dar mais valor a uma peça ornamental feita com marfim do que a vida de um elefante. A gente não sabe fazer o imposto de renda. A gente não lembra da história do nosso país. A gente abre vírus no email. A gente acha que saber se comunicar é colocar todas as crases corretamente. A gente não sabe de onde vem a comida que come. A gente faz piada e ri do sofrimento alheio. Certamente há algo que cheira mal no modo como contamos às pessoas sobre o mundo. Ou estaria muito certo ? Afinal de contas, a escola contemporânea está aí pra ditar às pessoas como o mundo está e o que você deve fazer para que ele continue assim no futuro. Nessa perspectiva sou forçada a admitir que a escola é uma instituição de grande sucesso e não como eu tinha pensado no começo uma instituição com problemas incuráveis.


Sinto que temos que prestar mais atenção ao que as crianças que decidiram não frequentar a escola tem a dizer. E se alguém pode apontar o caminho sobre como deveríamos compartilhar coisas sobre o mundo com as crianças, são elas próprias. Afinal, são elas que estão gastando as 18 mil horas da vida delas com isso. A gente já passou dessa fase e provavelmente esqueceu.


* E eu me sinto meio mal de ficar o tempo todo falando o que eu acho o que eu não acho, eu mudo de opinião o tempo todo, eu me sensibilizo com o que as pessoas opinam, como elas defendem as ideias delas, e eu também acho que sempre existem dois lados para as coisas. Eu não acredito muito em certo e errado. Nem essa última frase deve ser totalmente certa ou totalmente errada. Eu não gosto de defender uma única postura ideológica, quero dizer, eu acho que não faço parte de nenhum grupo ou ideologia. Eu fujo de grupos. Eu não acredito em teorias malévolas da conspiração. E eu não sei como resolver essas dúvidas mesmo dentro de mim. Mas tudo bem. Eu estou aprendendo, estou errando. Estamos sempre no processo. Mas, mesmo assim, mesmo com medo, decidi compartilhar esse meu estado mental temporário com as pessoas porque elas sempre me dão ideias legais.

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