quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Alesso

quando eu era criança, bem pequena, ficava muito de castigo
alguma bobeira que fazia
e não podia dançar quadrilha; não podia ir passar o fim de semana no lago.
não sei pra que tanto castigo.
a gente não entende. quando a gente é criança tudo é na hora.
aliás, quanto mais novo a gente é mais a gente está presente nos momentos de uma maneira absurdamente intensa. parece que não vai existir depois. a gente não tem paciência.
isso me fazia usar de todas as forças pra sair do castigo e ir "viver a vida" loucamente. 

quando eu entrava de castigo eu ficava desesperada. em algum momento saía pra um canto,
sentava e apertava meu cérebro o mais forte que eu podia.
a cabeça ficava vermelha e não era de raiva (ás vezes era, mas isso é outra história).
eu pensava que se eu pensasse bem forte, o tempo retrocederia até o momento em que eu não estava de castigo, e eu poderia evitá-lo. 
então eu pensava bem forte.

eu via que o tempo não voltava atrás porque continuava de castigo.
eu esperava que minha mãe surgisse perguntando coisas do vestido de quadrilha; esperava que tudo fosse se alterar à minha volta e ficar "feliz". mas, a princípio, eu não pensava que eu mesma fosse mudar porque eu não queria mudar, só queria não estar de castigo. pra isso quem tinha que mudar, na minha cabeça, eram as outras pessoas. 
eu achava meio impossível que o tempo não tivesse voltado, já que eu tinha pensado tão forte, tinha feito tanto esforço. mas nada mudava. minha mãe continuava brava comigo e minhas esperanças de fazer as coisas funcionarem assim iam se frustrando a cada momento.

então eu entrava  em um terrível dilema : e se o tempo tivesse voltado e eu tivesse feito tudo da mesma maneira e tivesse ido parar no castigo de novo?
mas eu como eu podia ter feito tudo igual se eu sabia que aquilo ia me render um castigo?
mas não tinha outra explicação. 
devia ter acontecido isso, ou mais ou menos isso. o fato é que eu tinha voltado no tempo e feito algo pra merecer castigo pra sempre. e pra sempre eu ia permanecer naquele castigo. voltando no tempo e fazendo tudo igual. não importava voltar no tempo, eu continuaria presa no castigo. a certo ponto o castigo se tornara voltar no tempo. não me lembro muito bem como resolvi esse "contratempo" conforme fui crescendo. só sei que nunca mais tentei voltar no tempo com a força do meu pensamento e com o passar dos anos acho que fui trocando essa obsessão  por uma outra : tentar não me arrepender de nada que eu faço, ou que deixo de fazer.   

hoje eu estive pensando nisso, porque acordei com uma grande vontade de ser o Alesso. às vezes eu acordo querendo ser outras pessoas, na verdade, eu acho que a gente é as outras pessoas, mas isso fica pra uma outra conversa. 
o fato é que não adianta pensar forte; explodir a cabeça de tanta força do pensamento porque parece que não tem como eu me tornar o Alesso. o problema desses dilemas, tanto do meu dilema infantil, quanto desse meu dilema pseudo-adulto é que eu espero continuar sendo eu depois de me tornar o Alesso. mas depois de me tornar o Alesso eu sou o Alesso. eu não sou mais eu. na verdade, nós estamos infinitamente nos tornando Alessos por aí, a cada instante. é assim que somos todas as pessoas ao mesmo tempo. porque quando nos tornamos o outro, deixamos de ser nós mesmos.

eu sempre tive muita fé (vou chamar assim) de que tudo o que eu penso e acredito se torna real. a realidade é fluida. então tem que existir uma explicação pra tudo isso :
se eu tivesse me tornando o Alesso, eu não seria mais eu. eu, que queria ser o Alesso, seria uma outra pessoa, um Alesso-x. acho que por conservação de pessoas-que-querem-ser-outras-pessoas ainda existe uma Victória-x-+oo, que continua querendo ser o Alesso-x-+oo e se tornando o Alesso-x-+oo. essa daí é a que vos fala. 










Nenhum comentário:

Postar um comentário