segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sobre a Copa, linchamentos, PT e outros bodes expiatórios no país da expiação.

Não há como discordar de fatos - não vou entrar na discussão sobre a existência das coisas. Mas fatos estão quase sempre envoltos por algum tipo de discurso, e desse sim podemos e devemos desconfiar. Por exemplo, os problemas apontados por essas matérias estrangeiras de dez páginas - algumas escritas por repórteres oportunistas -, sobre a situação do Brasil na Copa do Mundo, eles são reais, infelizmente, estão acontecendo.

Mas, particularmente, desconfio muito da propaganda anti-Copa que atribui à FIFA, ou ao evento Copa do Mundo, os problemas do país. Da propaganda que reconstrói e se apropria dos fatos endereçando a Copa como grande vilã do Brasil. Não há como discordar que a Copa do Mundo evidenciou e intensificou o cenário de exploração e de repressão (destaco as palavras evidenciou e intensificou e fica sobre seus sentidos a reflexão) Mas essa realidade é conhecida de todos nós. 

Os episódios de Pinheirinho - e tantos outros que sequer tem uma história escrita- estão aí pra nos lembrar que ser expulso de sua casa, no Brasil, é uma questão de conveniência. Seja pra FIFA, seja pra Vale do Rio Doce, Camargo Correa, seja pra prefeitura de São Paulo que "faz a limpa" dos mendigos e usuários de crack no centro da cidade. As pessoas são sim expulsas de suas casas no Brasil. O que dizer dos indígenas que são manipulados por esse jogo de interesses há séculos? A Copa evidencia o cenário brutal de repressão social que existe nesse país, mas esse cenário só se materializa, só é possível porque aceitamos isso desde sempre. O Brasil é um tererno fértil para a perpetuação da exploração e das desigualdes. A causa disso é que tem de ser identificada e combatida.

De alguma forma, parece que para nós, brasileiros, é reconfortante e é mais fácil poder jogar a culpa na Copa. É reconfortante ter um bode expiatório.  Mas também é uma útil estratégia de manipulação, uma vez que, na câmara, os políticos se aproveitam desse nosso rompante anti-copa para aprovar, ou não, leis importantes sem a menor pressão ou fiscalização social - vide a recente discussão do PNE na câmara dos deputados.

A Copa do Mundo está deflagrando, internacionalmente, inclusive, situações com as quais somos obrigados a conviver. Mas essas situações não tem sua raiz na Copa do Mundo e vão continuar acontecendo depois dela porque vamos continuar correndo atrás de bodes expiatórios. Como estamos fazendo com o caso da Fabiane de Jesus, espancada e apedrejada recentemente por justiceiros. De quem é a culpa desse apedrejamento? A culpa é da jornalista Raquel Sheherazade, que defendeu, em outro contexto, também recentemente, que a população faça justiça com as próprias mãos. Nada mais fácil que culpar uma, e uma só pessoa, por uma situação em que mais de 20 seres humanos espancam até a morte - até a morte - outro ser humano, sem que nenhum deles tenha se dado conta do que estava fazendo (?). (Ou pior, tenha feito de maneira consciente) Quem se recorda do juiz de futebol que foi morto e esquartejado no Maranhão, ano passado, por colegas de time, depois de uma briga de jogo?

Culpar a Raquel Sheherazade nos liberta da discussão e da reforma profunda que precisamos fazer sobre o valor do ser humano na sociedade brasileira, ou mesmo, sobre o poder de decisão do cidadão, vítima de um sistema de comunicação que manipula totalmente sua mente, se for. Estamos admitindo o fracasso do projeto do ser humano.

O que me faz lembrar ainda do fim dos protestos de junho|julho, em que o saldo, para muitas pessoas, foi de que a "Dilma Roussef" e o PT são os responsáveis por todos os problemas do Brasil, são os únicos corruptos, e ainda para muitos, e muitas vezes os mesmos, defendendo a volta da ditadura, a "marcha da família com a galera".

Você leu 1984 quando era criança e, naquela época, teve a impressão de que, felizmente, a coisa ainda está um pouco longe daquele cenário de alienação absurdo descrito no livro, quando, na verdade, essa reconstrução dos fatos sobre a Copa, por exemplo, ou o modo como atribuímos culpas a bodes expiatórios são um processo de alienação semelhante, que mascara a realidade e sustenta o estabelecimento do mesmo regime opressor, que identificamos agora na FIFA, na Raquel Sheherazade, na presidente Dilma e no PT.

Dizer que a culpa não é da Copa ou da FIFA; não é culpa da Raquel Sheherazade; não é culpa da Dilma ou do PT,  não é o mesmo que eximi-los de suas responsabilidades. Admiti-los como únicos culpados, esquecer de procurar outras causas, é o mesmo que admitir que só não compensa colocar fogo no Brasil porque vai contribuir muito com o aumento da taxa de CO2 na atmosfera, mas é o total fracasso do povo brasileiro, do cidadão brasileiro, da existência de brasileiros pensantes e com potencial de ação. É só que, pessoalmente, acredito que buscando bodes expiatórios vamos continuar assistindo a outros "Pinheirinhos", outros apedrejamentos, outros episódios de corrupção, que serão, em essência, os mesmos de sempre.



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